Monumento a Dominik

© Nicole Benewaah Gehle 2021

Monumento a Dominik

Um legado controverso

Ndzodo Awono
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Hans Dominik (1870-1910) desenvolveu entre 1894 e 1910 a maior parte da sua carreira nos Camarões, onde dirigiu expedições, bem como a Estação de Yaoundé [1]. Conduziu por todo o território expedições punitivas [2] contra os habitantes autóctones. Embora já não exista de pé qualquer monumento a Dominik em Hamburgo, este permanece um capítulo da história dessa cidade e mantém-se a necessidade de um debate a respeito dos monumentos coloniais tanto em Hamburgo como em toda a Alemanha.

Monumento a Dominik, sem data. Foto: © Arquivo do Estado de Hamburgo

Dominik – A criação da estação e o combate ao comércio esclavagista

As atividades desenvolvidas por Dominik visavam um objetivo duplo: não apenas a defesa dos interesses alemães, mas também a extensão e consolidação do prestígio da presença alemã. Em julho de 1895, quando se tornou o sucessor do botânico Georg August Zenker (cujo mandato decorreu entre 1889 e 1895) e assumiu a direção da Estação de Yaoundé, proporcionou oportunidades de formação a muitos operários, avicultores e agricultores africanos, que mais tarde veio a empregar como trabalhadores da própria estação. Desse modo, foi responsável pela introdução do conceito de trabalho remunerado na Estação. Além disso, contribuiu também para a fundação de um mercado, a criação de uma farmácia e a construção de rodovias em Yaoundé. [3] 

No entanto, os seus esforços não se concentraram apenas no desenvolvimento de infraestruturas. Para resolver o problema das barreiras linguísticas na Estação, apostou na formação de Karl Atangana, um jovem que falava ewondo , um subgrupo das línguas beti , por sua vez uma língua banta. Mais tarde, Dominik colocou Karl Atangana como governante dos Beti. [4] É questionável que tenha posto fim à escravatura nos Camarões, tal como ele próprio afirmou. [5] A colonização contribuiu, sobretudo, para uma mudança dos paradigmas e dos papéis desempenhados por cada uma das partes. Ao invés de combater o regime de terror e a escravatura, a qual acusava de ser praticada pelos líderes locais, Dominik tirou partido dessa situação em proveito próprio. Em termos gerais, a população era escravizada e forçada a satisfazer as exigências de Dominik por própria conta e risco. Aquando da caça a jovens elefantes realizada em outubro de 1898 nas regiões de Mwele e Bane, próximas de Yaoundé, Dominik ameaçava abater a tiro qualquer um que se recusasse a permanecer na posição que lhe fora atribuída. [6]

Dominik como instigador de guerras ou como líder de expedições?

Como líder da Estação e daquelas expedições, Dominik agiu sem qualquer consideração e com toda a dureza contra a população. O seu nome evocava medo por toda a colónia. [7] No decurso das suas expedições punitivas ordenou atrocidades que hoje em dia seriam classificadas como crimes contra a humanidade: mandava cortar partes do corpo de inimigos caídos em combate e abusar de mulheres capturadas, que serviriam de escravas sexuais para os seus soldados, ordenou que pela fome se forçasse crianças e mulheres à rendição, que se pilhasse e queimasse aldeias e cidades, que se confiscasse os pertences e se executasse quem combatesse em prol da resistência. [8] O comportamento desumano de Dominik em relação à população local passou a ser conhecido para além das fronteiras do território alemão dos Camarões, tendo chegado a causar indignação entre outras potências coloniais europeias, como os britânicos, mas também entre os sociais-democratas alemães, [9] o que resultou em acusações contra Dominik, que, de todos os modos, as rejeitou como difamações. [10]

Despojos resultantes da pilhagem ao Palácio Lamido em Tibati. Foto: © Hans Dominik, Kamerun. Sechs Kriegs- und Friedensjahre in deutschen Tropen [Camarões. Seis anos de guerra e de paz nas regiões tropicais alemãs], Ernst Siegfried Mittler und Sohn, Berlim, 1901 (pág. 277).

Despojos da tomada de Ngilla. Foto: © Departamento Colonial do Ministério dos Negócios Estrangeiros (org.), Deutsches Kolonialblatt. Amtsblatt für die Schutzgebiete des Deutschen Reichs [Diário Colonial Alemão. Boletim oficial dos protetorados do Império Alemão], vol. 10, 1899 (pág. 847).

Dominik como colecionador
As guerras levadas a cabo por Dominik serviram não só para subjugar a população, mas visaram também, através da prática da pilhagem, roubar aos povos indígenas os respetivos símbolos de poder e outros tesouros culturais. Essa pilhagem representava, pois, o meio mais eficiente de confiscação. Objetos provenientes da coleção pessoal de Dominik podem ainda hoje ser encontrados em mais do que um museu na Alemanha. A importância de Dominik para a cidade de Hamburgo encontra expressão também nas suas coleções. O antigo Museu de Etnologia de Hamburgo, por exemplo, agora conhecido pelas iniciais MARKK (Museu am Rothenbaum Kunst und Kulturen), contém cerca de 1325 artefatos camaroneses, a maioria dos quais (uns 1316) são armas, que aí chegaram em 1911, como parte do legado de Dominik. [11] Não é fruto do acaso o facto de tal legado conter um número tão grande de armas. Na época colonial, nenhum agressor teria alguma vez deixado para trás as armas da população dominada.

Os primeiros monumentos coloniais alemães não foram criados na Alemanha, mas sim em África. Foram sobretudo dedicados aos atores mais relevantes do colonialismo alemão, tais como os soldados da Schutztruppe , os pioneiros ou médicos. Estes monumentos não só comemoravam os feitos de indivíduos, como também serviam para pôr em evidência as aspirações de poder a nível mundial e ainda para reforçar o prestígio nacional, o orgulho nacional e a popularidade do colonialismo. [12] Foi nesse sentido que, após a sua morte, também ao major Hans Dominik foram dedicados monumentos: Dominik é um dos atores coloniais com um papel decisivo no enriquecimento da cidade e dos comerciantes de Hamburgo. [13] Este monumento é, assim, parte integrante da história da cidade. Inaugurado a 7 de julho de 1935 em frente ao edifício da Universidade de Hamburgo, o monumento esteve inicialmente guardado no armazém da estação de Yaoundé e só em 1930 é que chegou ao porto da cidade hanseática. A derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial e o subsequente processo de descolonização a nível mundial levou a uma mudança de atitude em relação à história colonial. Nestas circunstâncias, o ressentimento dos estudantes em relação aos monumentos coloniais de Wissmann e Dominik acabou por se intensificar. Entre os anos de 1961 e 1967, estes foram exigindo regularmente – ainda que sem qualquer sucesso – a remoção dos monumentos. Só na noite de 1 de novembro de 1968 é que os ativistas do movimento estudantil tomaram por fim a iniciativa de derrubar estas estátuas dos respetivos pedestais. [14]

A discussão a respeito do Monumento a Dominik em Hamburgo não pode ser dissociada do atual debate crítico na Alemanha sobre os monumentos coloniais. A iniciativa Hamburg Postkolonial acusa os grandes senhores do colonialismo alemão de racismo e da intolerância dele resultante face aos africanos no decurso da colonização; nesse sentido, a iniciativa declara guerra a qualquer símbolo existente em Hamburgo que lembre os tempos mais negros do colonialismo alemão em África. Hamburg Postkolonial denuncia publicamente as estátuas em Hamburgo que são ou foram dedicadas às antigas figuras de poder do colonialismo em África e que, como tal, glorificam o colonialismo e as suas consequências. 

Numa entrevista à Deutschlandfunk, Jürgen Zimmerer, Professor de História de África na Universidade de Hamburgo, descreveu os monumentos coloniais como uma expressão dos crimes coloniais e do racismo colonial. [15] O Monumento a Dominik, tal como quaisquer monumentos de outros oficiais coloniais alemães que serviram em África, é um «símbolo de um passado brutal [ou] da opressão e exploração das populações de África, da repressão brutal de qualquer forma de resistência anticolonial, do espírito racista da Alemanha». [16] Para a historiadora Rita Müller, diretora do Museu do Trabalho de Hamburgo, a estátua de Hans Dominik é uma recordação da opressão dos povos que viveram na colónia alemã dos Camarões. [17] 

Do meu ponto de vista, enquanto estudante da Universidade de Hamburgo, enquanto camaronês e enquanto descendente dessas populações colonizadas, o Monumento a Dominik, derrubado em 1968, pode ser interpretado de uma forma diferente. É um sinal de glorificação de um criminoso, de desrespeito por todos os camaroneses que perderam a sua dignidade humana, os seus entes queridos e os seus bens no decurso das expedições punitivas organizadas por Dominik; e é ainda um insulto a todos os combatentes da resistência que foram fuzilados ou executados. A questão da recetividade crítica dos monumentos coloniais, na Alemanha em geral e em Hamburgo em particular, inclui também a questão da sua remoção ou preservação.Insert your text here

O que fazer em relação aos monumentos coloniais?
Mantem-se acesa a disputa em relação ao modo como lidar com os monumentos coloniais. Jürgen Zimmerer apoia a remoção de monumentos coloniais e acredita que a demolição de tais estátuas não iria causar dificuldades ao trabalho educativo e de esclarecimento. Em vez da reatribuição de novas «caraterísticas» aos monumentos controversos através de quadros com inscrições, ele sugere que sejam incorporados em todo um conjunto que aborde os temas dos crimes coloniais e do racismo, chamando assim atenção para esta parte da história, da qual resulta em grande medida a prosperidade da Europa. [18] Outros historiadores, como é o caso de Dirk van Laak, mostram-se contrários à remoção dos monumentos coloniais. De acordo com ele, a remoção de um monumento implica que este deixe de poder ser discutido. [19] Concordo com as pessoas que argumentam a favor da preservação dos monumentos coloniais. Com a remoção do Monumento a Dominik, os atos que esse homem perpetrou nos Camarões foram esquecidos. Passados cerca de 110 anos após a sua morte e cerca de 53 após a sua estátua ter sido derrubada frente à Universidade de Hamburgo, já raramente – ou nada mesmo – se escreve acerca dele. Contudo, a presença de um monumento bem poderia ter encorajado os historiadores a investigar o respetivo passado colonial.
Tradução: Paulo Rêgo 

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Notas

[1] Eugen Kirch, Stammliste der Offiziere, Sanitätsoffiziere und oberen Beamten der Schutztruppe für Kamerun. Aufgestellt auf Befehl des Kommandos der Kaiserlichen Schutztruppe für Kamerun [Lista dos oficiais, oficiais médicos e funcionários superiores da Schutztruppe para os Camarões, criada por ordem do Comando da Schutztruppe Imperial dos Camarões], Ernst Siegfried Mittler & Sohn, Berlim, 1906 (pág. 9).


[2] As chamadas «expedições punitivas» (Strafexpeditionen) consistiam na aplicação de poder militar contra os colonizados – sob o pretexto da «pacificação» ou do combate à prática da escravatura ou de furtos –, tendo como objetivo expropriar essas populações ou obrigá-las a prescindir dos seus direitos de exercício do comércio.

[3] Hans Dominik, Kamerun. Sechs Kriegs- und Friedensjahre in deutschen Tropen [Camarões. Seis anos de guerra e de paz nas regiões tropicais alemãs], Ernst Siegfried Mittler und Sohn, Berlim, 1901 (págs. 144–145).

[4] Hans Dominik, Vom Atlantik zum Tschadsee. Kriegs- und Forschungsfahrten in Kamerun [Do Atlântico ao lago Chade. Viagens de guerra e de investigação nos Camarões], Ernst Siegfried Mittler und Sohn, Berlim, 1908 (pág. 34).

[5] ibidem (págs. 164–166).

[6] Hans Dominik, Kamerun. Sechs Kriegs- und Friedensjahre in deutschen Tropen [Camarões. Seis anos de guerra e de paz nas regiões tropicais alemãs], Ernst Siegfried Mittler und Sohn, Berlim, 1901 (págs. 246).

[7] Staatsarchiv Hamburg, Bestand Nr. 131-4, Bestand Senatskanzlei-Präsidialabteilung, Signatur 1929 A75, Aufstellung der Denkmäler aus den Kolonien, Hans Dominik, Dr. Karl Peters, von Wissman [Arquivo Estatal de Hamburgo, Atas Nr.131-4, Atas da Chancelaria do Departamento Presidencial, Assinatura 1929 A75, Lista dos Monumentos das Colónias, Hans Dominik, Dr. Karl Peters, von Wissmann].

[8] Ndzodo Awono, Der deutsche koloniale Raub in Afrika: Die Kamerun-Sammlung im Übersee-Museum Bremen im Fokus der Provenienzforschung [O roubo colonial em África: a coleção dos Camarões no Museu do Ultramar de Bremen no foco da investigação sobre a proveniência], dissertação para obtenção do grau de doutoramento na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Hamburgo, entregue em 2021.

[9] ANY-FA1/75 Erschließung des Adamauagebiets [Exploração da região de Adamaua], fl. 213–214.

[10] Stenographische Berichte der Verhandlungen des Reichstages [Registos estenográficos das negociações do Reichstag], Vol. 228, 46ª reunião, pág. 1421 B – D & 1422 A – C: Dominik, capitão (Camarões).

[11] Auszug aus der Sammlungs-Datenbank des Museums am Rothenbaum Hamburg MARKK [Extrato da base de dados da coleção do Museu am Rothenbaum Hamburg MARKK] (consultado a 28/04/2021).

[12] Kimberley Vugts, Deutsche Denkmäler des deutschen Kolonialismus (1884–1919) und die deutsche koloniale Erinnerungskultur, Bachelorarbeit zur Entwicklung der deutschen kolonialen Erinnerungskultur in Deutschland ab 1945 [Monumentos do colonialismo alemão (1884–1919) e a cultura da memória colonial alemã. Tese de fim de curso acerca do desenvolvimento da cultura da memória colonial na Alemanha a partir de 1945], Universidade de Radbould, Nijmegen, 2015 (pág. 18).

[13] Aufarbeitung der Kolonialgeschichte – Hamburgs Reichtum durch den Kolonialhandel [Revisão da história colonial – A riqueza de Hamburgo em resultado do comércio colonial] (deutschlandfunk.de) (consultado a 08/05/2021).

[14] Joachim Zeller, Kolonialdenkmäler und Geschichtsbewusstsein. Eine Untersuchung der kolonialdeutschen Erinnerungskultur [Monumentos coloniais e consciência histórica. Uma investigação da cultura de memória colonial na Alemanha], IKO-Verlag, Frankfurt, 2000 (págs. 200–210).

[15] Statuensturz in Bristol – "Koloniale Denkmäler auf den Kopf stellen" [Derrubar estátuas em Bristol – «Pôr monumentos coloniais de pernas para o ar»] (deutschlandfunk.de) (consultado a 08/05/2021).

[16] “Symbol einer brutalen Vergangenheit“. Wo überall Kolonialismus-Denkmäler gestürzt werden [«Símbolos de um passado brutal.» Por todo o lado, onde monumentos do colonialismo estão a ser derrubados] (tagesspiegel.de) (consultado a 09/05/2021).

[17] Aufarbeitung der Kolonialgeschichte – Hamburgs Reichtum durch den Kolonialhandel [Revisão da história colonial – A riqueza de Hamburgo em resultado do comércio colonial] (deutschlandfunk.de) (consultado a 08/05/2021).

[18] Statuensturz in Bristol – "Koloniale Denkmäler auf den Kopf stellen" [Derrubar estátuas em Bristol – «Pôr monumentos coloniais de pernas para o ar»] (deutschlandfunk.de) (consultado a 08/05/2021).

[19] Debatte um koloniale Denkmäler: "Es gelingt selten, Erinnerungen zu löschen" [Debate a propósito dos monumentos coloniais: «Raramente se consegue apagar as memórias» ] (n-tv.de) (consultado a 10/06/2021).