Monumento a Bismarck

© Nicole Benewaah Gehle 2021

Monumento a Bismarck

Com “sangue e ferro” através de África: O controverso colosso de Bismarck em Hamburgo

Hannimari Jokinen
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O maior de todos os monumentos erigidos pelo mundo fora a Otto von Bismarck — o primeiro chanceler do Império Alemão — ergue-se em Hamburgo a 34 metros de altura. Durante muito tempo esta construção quase caiu no esquecimento, viu-se coberta de graffiti e envolta por um parque urbano degradado. Desde o início de 2020 e até 2021 o gigante de pedra está a ser alvo de obras de restauro no valor de nove milhões de euros, tendo voltado a estar no centro de intensos debates. Afinal, o que está ali a ser polido e embelezado? De que importância se reveste esta estátua numa época pós-colonial em que outros monumentos são derrubados? Qual a razão para esta gigantesca construção ter sido erigida em Hamburgo?

Otto von Bismarck (1815–1898) foi, entre 1871 e 1890, o primeiro chanceler do Império Alemão, depois de, em resultado de três guerras de âmbito europeu, ter conseguido unificá-lo como um Estado. Bismarck era um antidemocrata, que pretendia fazer prevalecer as “grandes questões” com recurso a “ferro e sangue”. Os setores conservadores da nação agradeceram-lho postumamente: por todo o mundo foram erigidos mais de 300 monumentos a Bismarck, incluindo no Togo, nos Camarões e na Papua-Nova Guiné.

Apesar de Bismarck se manter bem presente na memória coletiva enquanto importante estadista europeu e arquiteto da unificação do Império Alemão, o seu papel no colonialismo alemão e europeu é frequentemente minimizado.

Postal de Hamburgo com o “selo” de Bismarck. Os grandes comerciantes de Hamburgo — de entre os quais se destacou Adolph Woermann — souberam ir em busca do “selo de aprovação” de Bismarck, assegurando assim o empenho do poder imperial na defesa dos seus interesses económicos ligados às colónias, sobretudo em África. Colagem: © afrika-hamburg.de

Durante bastante tempo, Bismarck terá manifestado uma postura algures entre a reserva e a recusa relativamente à aquisição de colónias. No entanto, tal não se deveu de todo a quaisquer escrúpulos morais que pudesse ter: acima de tudo, duvidava das vantagens que a política colonialista teria para o Império Alemão. Ainda assim, Bismarck não deixou desde meados da década de 1870 de conduzir ações de política europeia em África. Dispunha de um fundo de reserva para assuntos relacionados com esse continente, que atingia os 200 000 Reichsmark anuais e era financiado com dinheiro dos impostos, mediante o qual promoveu “viagens de investigação” — que na realidade revelaram ser missões de reconhecimento territorial, com vista a preparar uma possível colonização posterior. Com recurso a este “Fundo Africano” foram financiadas diversas expedições supostamente “com fins científicos” a Angola, ao Norte de África e à África Oriental, aos rios Níger e Congo. Em 1876 foi fundada a Deutsche Afrika-Gesellschaft (Sociedade Alemã para a África), que a par do apoio de promotores privados era também financiada com dinheiros estatais. [1]      

Colonizar, nacionalizar os prejuízos, privatizar os lucros

Bismarck e os comerciantes de produtos coloniais de Hamburgo tinham começado por apostar no comércio livre e na criação de um império comercial de caráter informal. De início, o chanceler não considerava oportuno estabelecer colónias, que no seu entender representariam elevados custos financeiros para o Império. Com recurso a tropas paramilitares próprias e a brutais “expedições punitivas”, as casas comerciais de Hamburgo tinham-se apropriado de terras e obrigado a população a realizar trabalho forçado nas suas plantações. No entanto, à medida que a resistência da população colonizada foi crescendo e que também a concorrência das potências europeias se foi intensificando na costa africana, os comerciantes aperceberam-se da necessidade de contarem com a «proteção imperial» para preservarem os seus interesses comerciais.

Foram sobretudo os lobistas, de entre os quais se destaca Adolph Woermann, presidente da Câmara de Comércio de Hamburgo, que — através de memorandos com petições para a criação de uma frota e de visitas frequentes a Bismarck, na sua propriedade de Sachsenwald — insistiram com o chanceler para o estabelecimento de colónias. 

Após a adoção por parte do Império Alemão de uma política ativa de colonização, o Fundo Africano foi dissolvido em 1887. Com efeito, viria a provar-se que Bismarck tinha razão: em termos de economia nacional, a política colonial revelou-se um negócio que deu prejuízo, ao passo que alguns dos indivíduos que dirigiam o comércio colonial conseguiram obter elevados lucros das suas atividades.

A Conferência de Berlim e o estabelecimento de colónias alemãs

Quando o imperador Guilherme II anunciou a sua nova política de criação de uma frota de guerra e recorreu ao lema “O futuro da Alemanha está na água” — reclamando assim prestígio e influência a nível internacional para o Império Alemão —, as palavras do soberano soaram como música nos ouvidos dos armadores, banqueiros e senhores do comércio colonial de Hamburgo.

Para clarificação das reivindicações de poder concorrentes entre os diversos estados europeus, o chanceler convidou-os para participarem na chamada Conferência de Berlim (1884/1885), na qual se discutiu e decidiu em que moldes seria feita a divisão do continente africano entre as nações industrializadas mais ricas. Não foram convidados quaisquer representantes dos países africanos. 

Após a realização da Conferência de Berlim, o Império Alemão tomou posse das suas colónias. O bairro da Speicherstadt (“Cidade dos Armazéns”), em Hamburgo, tornou-se assim, a partir de então, o maior complexo a nível mundial de armazéns destinados a albergar produtos coloniais. Em 1888, a cidade de Hamburgo aderiu ao Deutscher Zollverein (União Aduaneira Alemã), depois de os comerciantes se terem apercebido que essa adesão permitiria ter acesso a apoios financeiros consideráveis para a criação de mais instalações portuárias. 

Nos territórios em África, na Ásia e na Oceânia que eram designados como “protetorados alemães”, tanto Bismarck como os chanceleres que se lhe seguiram promoveram a criação de administrações coloniais e, a partir do porto de Hamburgo, enviaram soldados, armamento e navios de guerra. Do ponto de vista económico, as colónias geraram prejuízo para o Império Alemão, mas as casas comerciais de Hamburgo puderam realizar negócios com lucros bastante elevados. 

Já as consequências da política colonial alemã para as populações colonizadas representam um custo impossível de compensar. Sob o domínio estrangeiro, essas populações tiveram de suportar a expropriação e tomada de posse sistemática das suas terras, a aplicação de castigos corporais, a condenação a uma vida de trabalhos forçados, além da perda de vidas humanas em campanhas militares de extermínio, guerras e ações de genocídio.

Também Bismarck teve lucros esplêndidos em resultado do comércio colonial. Presume-se que, juntamente com Adolph Woermann e outros fabricantes de aguardente de Hamburgo, o chanceler tenha estado envolvido num lucrativo negócio de venda de bebidas alcoólicas em África. Na década de 1880 sessenta por cento de todas as exportações para as colónias consistiam em álcool de qualidade inferior. As bebidas espirituosas foram adotadas como um meio de pagamento generalizado, com consequências devastadoras, pois tal originou uma forte dependência do álcool em muitas regiões de África. Bismarck impediu todas as tentativas que visassem controlar as exportações de aguardente. As críticas que se fizeram ouvir ao longo de vários anos, sobretudo por parte dos sociais-democratas no Reichstag — o parlamento do Império Alemão — ou pela voz dos missionários, não tiveram quaisquer efeitos práticos. [2]

O Monumento a Bismarck em Hamburgo: também um monumento ao colonialismo

Face aos lucros obtidos através do comércio colonial torna-se claro por que razão um tal monumento em honra de Bismarck foi erigido precisamente em Hamburgo — uma cidade-estado que, de resto, se recusava o mais possível a aceitar as influências prussianas.

O Monumento a Bismarck em Hamburgo, construído em 1906, no auge da era imperialista na Alemanha, exprime o agradecimento da elite comercial desta cidade pelo estabelecimento de colónias e pela ampliação do porto. Com efeito, o monumento não visa celebrar qualquer patriotismo fervoroso ou entusiasmo pelo Império Alemão, constituindo antes um “instrumento … de um frio cálculo comercial” [3]. Não admira, pois, que a lista dos seus promotores e principais patrocinadores possa ser lida como um who’s who dos mais influentes comerciantes, banqueiros e armadores de Hamburgo com ligações às políticas coloniais.

Quais os responsáveis pela criação do monumento?

Os promotores e principais patrocinadores do Monumento a Bismarck em Hamburgo foram influentes comerciantes, banqueiros e armadores dessa cidade, com interesses na política colonial. Aquando da inauguração do monumento em 1906 estiveram presentes membros do Senado e parlamentares da Hamburgische Bürgerschaft, bem como comerciantes que integravam o Comité para o Monumento a Bismarck, em harmonioso acordo com o grupo local do Alldeutscher Verband (Liga Pangermânica), cujos membros desenvolviam atividades no Deutscher Flottenverein (“Associação para a Frota Alemã”, por vezes referida como Liga Naval Alemã) e na Deutsche Kolonialgesellschaft (Sociedade Colonial Alemã). Os representantes da Liga Pangermânica — influente ponto de confluência de gente da alta burguesia, nacionalistas radicais, antissemitas e entusiastas das colónias — depositaram uma enorme coroa de louros na base do monumento e, nos tempos que se seguiram, tiraram partido deste como ponto de encontro para os seus fins propagandísticos. Uma boa parte da população da cidade de Hamburgo rejeitou a ideia do colossal monumento, expressando uma aversão que se manteve até hoje na opinião pública.
Johann von Berenberg-Gossler (1839-1913) Dono de um dos mais antigos bancos privados, o Berenberg Bank, com envolvimento em negócios por todo o mundo. Descendente de uma família há muito estabelecida como negociantes de têxteis, armadores, comerciantes de produtos coloniais e seguradores na aérea da navegação marítima. A casa comercial desenvolvia negócios no Leste Asiático, na América Latina e nos EUA. Foi um apoiante da adesão de Hamburgo à União Aduaneira Alemã. Desde 1993 que uma rua em Niendorf, chamada Berenberg-Gossler-Weg, presta homenagem a esta família de banqueiros, que aí dispunha de uma extensa propriedade.
Rudolph Crasemann (1841-1929) Comerciante de produtos coloniais no Egito, nas Índias Ocidentais e nas Américas. Foi membro da Comissão do Porto Franco, da Câmara de Comércio de Hamburgo e deputado na Hamburgische Bürgerschaft. Integrou também o conselho de administração de uma associação que reunia apoiantes da Liga Naval Alemã no estrangeiro, organização essa que integrava a Sociedade Colonial Alemã. Opôs-se à conversão do Instituto Colonial de Hamburgo numa universidade.
Siegmund Hinrichsen (1841-1902) Comerciante na antiga colónia dos Camarões, dono do banco privado Hardy & Hinrichsen. Presidente da Hamburgische Bürgerschaft e da Câmara de Comércio. Diretor do Norddeutsche Bank (Banco do Norte da Alemanha), cujo principal negócio girava em torno no comércio colonial; esse banco participou na fundação, entre outros, do Banco Africano Alemão (criado para apoiar o comércio de diamantes na colónia do Sudoeste Africano Alemão), do Banco Brasileiro para a Alemanha e do Banco para o Chile e Alemanha. Desde 1948 que no bairro hamburguês de Borgfelde uma rua ostenta o seu nome.
Carl Ferdinand Laeisz (1853-1900) Sócio na companhia de navegação F. Laeisz e respetiva casa comercial. Comerciante de produtos coloniais, sócio de plantações nos Camarões, “barão” do nitrato do Chile, acionista principal da companhia de navegação Hapag. Deputado na Hamburgische Bürgerschaft, membro da Liga Naval Alemã, da secção de Hamburgo da Sociedade Colonial Alemã e do conselho fiscal do Norddeutsche Bank, cujo principal negócio girava em torno no comércio colonial.
De início, Laeisz começou por rejeitar firmemente a influência prussiana em Hamburgo: “A Prússia, com o seu militarismo e a sua pedante burocracia, afigura-se pouco simpática ao hamburguês.” No entanto, depois de este grande senhor do comércio se ter apercebido das vantagens do novo Porto Franco de Hamburgo e do estabelecimento das colónias, contribuiu com doações para o Monumento a Bismarck.
Também a fachada do próprio edifício onde a casa comercial estava instalada, o Laeiszhof, situado em Nikolaifleet — igualmente sede da Afrikanische Frucht-Compagnie, uma empresa produtora e importadora de bananas —, se encontrava ornamentada com uma estátua que representava Bismarck. Uma rua no bairro hamburguês de Sankt Pauli, a Laeiszstraße, reconhece desde 1861 a predisposição para a doação desta dinastia familiar, que criou o Laeisz-Stift, um lar para pessoas necessitadas. 
Ludwig Julius Lippert (1835-1918) Comerciante colonial, armador, negociante de lã, dinamite e diamantes na África do Sul. Parceiro de negócios de Max von Schinckel na Diamant-Commandit-Gesellschaft, uma sociedade dedicada ao negócio de diamantes. Deputado na Hamburgische Bürgerschaft. Enquanto político, envolveu-se na defesa do colonialismo, sendo adepto das Repúblicas Bóeres na África do Sul. Patrocinou o Instituto Científico de Hamburgo, instituição precursora do Instituto Colonial de Hamburgo. “O seu irmão Wilhelm foi cônsul alemão na Cidade do Cabo precisamente na altura em que o Império Alemão adquiriu a sua primeira colónia, o Sudoeste Africano Alemão — funcionava assim como o ‘homem de ligação’ no Cabo da Boa Esperança para o chanceler Otto von Bismarck.”  [4]
William Henry OʼSwald (1832-1923) Comerciante de produtos coloniais na África Oriental, cônsul honorário em Zanzibar, senador e segundo-burgomestre de Hamburgo. O seu pai havia desencadeado uma inflação na África Ocidental depois de inundar o mercado com caurim, a concha de um molusco então usada como moeda, que ele trouxera em segredo das ilhas Seychelles. A casa comercial OʼSwald & Co. estabeleceu uma sucursal em Zanzibar, e outras ainda em Madagáscar e Mombaça. No armazém de OʼSwald em Zanzibar foram empregues até 400 pessoas, escravizadas e submetidas a um regime de trabalhos forçados, depois de sequestradas do interior do território [5]. Do acordo comercial celebrado entre William Henry OʼSwald e o sultão zanzibarita Mâdjid ibn Sa'id foram sobretudo as cidades de Hamburgo, Bremen e Lübeck que saíram beneficiadas. Por sua iniciativa procedeu-se em 1896 à criação da secção de Hamburgo da Sociedade Colonial Alemã. Desde 1893 que o OʼSwaldkai, um cais no porto de Hamburgo (Kleiner Grassbrook) recorda este influente comerciante de produtos africanos.
Rudolph Petersen (1878-1962) Fundador da casa comercial R. Petersen & Co., sócio e diretor do Norddeutsche Bank, cujo principal negócio girava em torno no comércio colonial. Presidente da Associação de Exportadores de Hamburgo e da Liga do Comércio Grossista e Ultramarino. Primeiro-burgomestre de Hamburgo, presidente do Überseeclub, um exclusivo clube de homens de negócios.
Max von Schinckel (1849-1938) Fundador do Comité para o Monumento a Bismarck em Hamburgo [6]. Homem de negócios com interesses comerciais na China, foi presidente da Câmara de Comércio. Diretor do Norddeutsche Bank, fundado em Hamburgo; foi sob a sua liderança que o comércio colonial se tornou o principal negócio desse banco. Tendo integrado a direção da Disconto-Gesellschaft, instituição bancária berlinense, dirigiu a fusão e integração nesta do Norddeutsche Bank. Esse consórcio desempenhou um papel determinante como financiador da guerra colonial no Sudoeste Africano Alemão e, por essa via, é-lhe atribuída corresponsabilidade pelo genocídio perpetrado contra os povos Herero e Nama. O Deutsche Bank, que em 1929 se fundiu com a Disconto-Gesellschaft, está atualmente envolvido em processos judiciais movidos por associações de descendentes das vítimas do genocídio contra os Herero e os Nama, que reclamam desculpas e indemnizações.
Edmund Siemers (1840-1922) Comerciante de produtos coloniais, armador, banqueiro. Além de “barão” do nitrato do Chile, no norte desse país, foi também detentor de território de selva no Paraguai e magnata do petróleo, ficando conhecido como “o Carnegie de Hamburgo”. Caiu em descrédito em resultado de especulações imobiliárias de carácter duvidoso, envolvendo terrenos na Mönckebergstraße, uma importante rua comercial de Hamburgo.8 Financiou a construção do edifício do Instituto Colonial de Hamburgo. Desde 1907 que uma avenida com o seu nome honra a memória deste comerciante. 
Ernst Friedrich Sieveking (1836-1909) Jurista, senador e primeiro presidente do Tribunal da Relação de Hamburgo, Sieveking descendia de uma dinastia de comerciantes de produtos coloniais há muito estabelecida na cidade. Ainda hoje a praça diante do Tribunal da Relação tem o nome deste jurista.
Johannes Versmann (1820-1899) Advogado, primeiro-burgomestre de Hamburgo. Representante do estado de Hamburgo no Conselho Federal da Confederação da Alemanha do Norte, com sede em Berlim. Presidente honorário do Comité para o Monumento a Bismarck. Foi Versmann que, aquando da adesão de Hamburgo à União Aduaneira Alemã, conseguiu mediante morosas negociações alcançar um difícil compromisso com Bismarck.
Adolph Woermann (1847-1911)  Comerciante, outrora o maior armador privado do mundo, presidente da Câmara de Comércio de Hamburgo. Enquanto político, ocupou-se sobretudo de questões coloniais, foi deputado do Reichstag, além de membro do conselho de administração e acionista principal de numerosas empresas ligadas à economia colonial.

Woermann é reconhecido como o “fundador” da colónia alemã dos Camarões, sobre a qual adquiriu direitos de soberania a partir de 1884. Nas suas gigantescas plantações no monte Camarões a população colonizada era sujeita a trabalhos forçados. O seu exército privado reprimiu os tumultos que se geraram contra o poder colonial com recurso à política de terra queimada.

Woermann dispunha de uma posição quase monopolista no envio por navio, a partir do porto de Hamburgo, tanto de soldados para as colónias como do respetivo armamento, pelo que cobrava custos de transporte exageradamente elevados.

Na colónia do Sudoeste Africano Alemão este comerciante conseguiu obter lucros do genocídio praticado contra os Herero e os Nama: quando os sobreviventes da campanha de extermínio regressaram do deserto, Woermann mandou construir campos de concentração privados para os recolher, de onde seguiam depois para realizar trabalhos forçados nos seus navios e para a OMEG, uma empresa que explorava e transportava por ferrovia o minério extraído na região de Otavi. A OMEG fornecia cobre à Norddeutsche Affinerie (atualmente Aurubis) — com sede em Veddel, Hamburgo — além de outras empresas. Os dados referentes tão-só a abril de 1906 documentam a presença nas minas de cobre da OMEG de 620 crianças, 700 mulheres e 900 homens a realizar trabalhos forçados [7]. Muitos dos detidos eram obrigados a trabalhar na construção da via férrea no meio do deserto.  Woermann explorou ainda um lucrativo negócio de exportação de aguardente para África, podendo presumir-se que o próprio Bismarck terá daí obtido um rendimento considerável. [8]

Por decisão de uma reunião de assembleia autárquica do bairro de Hamburg-Nord, está pendente o processo de alteração do nome de duas ruas que ostentam o apelido deste importante colonialista. As associações de descendentes das vítimas do genocídio contra os Herero e os Nama propuseram a atribuição de novos nomes às ruas.

A figura de Bismarck, representada como a de Rolando, transmite uma mensagem deliberadamente ambígua: à primeira vista, o monumento parece jurar fidelidade ao império sob comando prussiano; em sentido contrário vai o simbolismo integrado numa figuração que se assemelha à do herói medieval Rolando, enquanto patrono do comércio livre e dos interesses comerciais da grande burguesia. Do alto da colina que se ergue acima do rio Elba, a figura de Bismarck em pedra dirige o olhar para jusante, mantendo “a guarda sobre os mares mundiais” [9], com “uma imponente vista a partir do centro da cidade, dirigida ao tráfego internacional” [10]. Não é por acaso que esta poderosa sentinela abrange ainda com o olhar a arquitetura também ela modernista das Landungsbrücken, o desembarcadouro onde atracavam e de onde partiam os navios que cruzavam os oceanos. Na fachada do edifício desse desembarcadouro, concebida ao estilo da Arte Nova, existem figuras de pedra em tamanho superior ao natural, testemunhos de uma visão racista exotizante, que simbolizam os continentes — África, Ásia e América — colonizados a partir de Hamburgo.

Figuras de pedra nas Landungsbrücken. Graças ao local elevado onde o Monumento a Bismarck em Hamburgo se encontra implantado, dispõe-se do topo da estátua de contacto visual direto com as figuras de pedra que nas Landungsbrücken simbolizam os continentes. Essas esculturas de inspiração racista e exotizante foram ali instaladas um ano após a inauguração do Monumento a Bismarck. Fotos: © afrika-hamburg.de

O Monumento a Bismarck ergue-se na extremidade leste da chamada Hafenkrone (“coroa portuária”), um projeto urbanístico que compreende diversas construções imponentes, situado na colina com vista sobre o Elba, e que não deixa de estar intimamente ligado a toda a navegação colonial que se realizou a partir de Hamburgo: aí se situou também o antigo edifício da Deutsche Seewarte (Observatório Marítimo Alemão) — com atribuições de investigação nas áreas da navegação marítima, hidrografia e climatologia — e se situa ainda o edifício da antiga Escola de Navegação, bem como o Instituto Bernhard Nocht de Medicina Tropical. 

Desde o início que o enorme monumento erigido em Hamburgo se revelou controverso. A classe trabalhadora não compareceu na inauguração, realizada em 1906, ao passo que associações nacionalistas encararam Bismarck como um herói e ocuparam o parque junto ao Elba para aí realizarem as suas reuniões ritualizadas.

Marcha com tochas, 1925. Durante a Primeira Guerra Mundial decorriam anualmente festividades comemorativas junto ao Monumento a Bismarck. Em 1925, desfilaram aí associações nacionalistas, num cortejo com tochas. Nos anos que se seguiram realizaram-se também contramanifestações.  Fonte: Jörg Schilling, Das Bismarckdenkmal in Hamburg [O Monumento a Bismarck em Hamburgo], © Arquivo Estatal de Hamburgo

Após a Segunda Guerra Mundial procedeu-se à plantação de um grande número de árvores já quase adultas nesse parque, de modo a que aquele símbolo de uma outra época pudesse furtar-se aos olhares do público. Quando o poder executivo do Senado de Hamburgo foi assumido em conjunto pela CDU e por um pequeno partido da direita populista liderado por Ronald Schill, entre 2001 e 2003, a estátua de Bismarck foi iluminada e os admiradores de Bismarck promoveram o desbaste de árvores entretanto crescidas, para libertar eixos paisagísticos que permitissem ver o monumento. Quando esta renovação foi inaugurada, teve lugar um desfile de associações de extrema-direita e de neonazis. Entre 2014 e 2019 foram tomadas decisões na Hamburgische Bürgerschaft, o parlamento da cidade-estado, no sentido de o Monumento a Bismarck e o parque circundante serem objeto de obras de restauro.

Intervenção de restauro. O Monumento a Bismarck, a 9 de julho de 2020, rodeado de andaimes. Foto: © afrika-hamburg.de

A recuperação teve início em março de 2020, deverá estar terminada em finais de 2021 e tem dado origem a acesos debates. Deste modo, os dispendiosos trabalhos de recuperação do Monumento a Bismarck passaram a ser um indicador do quanto a cidade de Hamburgo está a levar a sério a “abordagem crítica do seu legado colonial” e o “novo começo numa cultura da memória”, tarefas a que a cidade explicitamente se propôs. 

Em 2013 foi, para esse efeito, criado um centro de investigação na Universidade de Hamburgo. Em 2017 o Ministério da Cultura e dos Media da cidade-estado convocou uma plataforma de discussão, a que deu o nome de “Mesa-redonda Legado Colonial”. Em 2019 esse organismo público constituiu o Conselho Consultivo para a Descolonialização de Hamburgo.

Por surpreendente que possa parecer, nos documentos que fundamentam as decisões da Bürgerschaft a este respeito [11] não existe qualquer referência ao papel que Bismarck desempenhou na história global. Iniciativas por parte da sociedade civil consideram urgentemente necessário que, também do ponto de vista da história colonial, sejam investigadas a fundo as motivações para a construção do enorme Monumento a Bismarck na cidade que é a “Porta para o Mundo”. Só após a realização de uma tal análise histórica, com uma perspetiva global, poderá ser cabalmente entendida e debatida a importância do monumento, para a seguir se poder justificar a maneira mais adequada de lidar com ele.

A Initiative Decolonize Bismarck exige que se interrompa as obras de restauro e se realize uma nova discussão com uma participação mais determinante de descendentes dos povos colonizados, de modo a impedir a promoção do colonialismo e, desse modo, também do racismo.

Setembro de 2020

Tradução: Paulo Rêgo

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NOTas

[1] Fonte: http://www.ub.bildarchiv-dkg.uni-frankfurt.de/Bildprojekt/Lexikon/php/suche_db.php?suchname=Afrikanische_Gesellschaft_und_Afrikafonds

[2] Klaus J. Bade, Friedrich Fabri und der Imperialismus der Bismarckzeit. Revolution - Depression – Expansion [Friedrich Fabri e o imperialismo da época de Bismarck. Revolução – Depressão – Expansão], 1975/2000. Ver também http://www.afrika-hamburg.de/bismarcke.html (15/08/2020); ver ainda Friedrich Engels, que, a propósito dos fidalgos latifundiários da Prússia Oriental e dos destiladores de aguardente, escreveu o seguinte: “Para onde quer que nos viremos, por todo o lado encontramos bebidas espirituosas prussianas. … A aguardente de batata é para a Prússia aquilo que o ferro e os artigos em algodão são para a Inglaterra; é o artigo que a representa no mercado mundial.”, incluído em “Preußischer Schnaps im Deutschen Reichstag [Aguardente prussiana no Parlamento Alemão]”. Texto original online: http://www.mlwerke.de/me/me19/me19_037.htm (15/08/2020)

[3] Susanne Wiborg, „Der größte Bismarck der Welt. Denkmale als Wirtschaftsfaktor: Wie es Hamburgs Kaufleuten um 1900 gelang, sich mit kolossalen Monumenten die Gunst von Kaiser und Reich zu sichern [O maior Bismarck do mundo. Os monumentos enquanto fator económico: como os comerciantes de Hamburgo de 1900 conseguiram, mediante colossais monumentos, assegurar os favores do imperador e do império]”, publicado no jornal ZEIT, 01/06/2006. Texto original online: https://www.zeit.de/2006/23/A-Denkmal_xml/komplettansicht (15/08/2020)

[4] Henning Albrecht: „Diamanten, Dynamit und Diplomatie: Die Lipperts. Hamburger Kaufleute in imperialer Zeit [Diamantes, dinamite e diplomacia: Os Lipperts. Comerciantes hamburgueses na época imperial]”, Hamburgische Wissenschaftliche Stiftung [Fundação Científica de Hamburgo], Hamburgo, 2018. Texto original online: http://hup.sub.uni-hamburg.de/volltexte/2018/181/pdf/HamburgUP_MfW20_Lipperts.pdf (19/08/2020)

[5] Karl Evers, Das Hamburger Zanzibarhandelshaus Wm O'Swald & Co 1847-1890. Zur Geschichte des Hamburger Handels mit Ostafrika [A casa comercial hamburguesa Wm O'Swald & Co em Zanzibar de 1847 a 1890. Para a história do comércio hamburguês com a África Oriental], Dissertação Universidade de Hamburgo, 1986, pág. 201. “O trabalho escravo era a base em que assentava todo o empreendimento comercial de O'Swald em Zanzibar.”, pág. 206. 

[6] Johannes Gerhardt, “Wohltätigkeit und Eigeninteresse: Edmund Siemers und die Motive des Stiftens [Beneficência e interesse próprio: Edmund Sievers e os motivos para a doação]“. Texto original online: https://netzwerk.hypotheses.org/2281 (19/08/2020)

[7]  Horst Drechsler, Südwestafrika unter deutscher Kolonialherrschaft [O Sudoeste Africano sob o domínio colonial alemão], vol. 2, Berlim, 1996

[8] Klaus J. Bade, Friedrich Fabri und der Imperialismus der Bismarckzeit. Revolution - Depression – Expansion [Friedrich Fabri e o imperialismo da época de Bismarck. Revolução – Depressão – Expansão], 1975/2000. Texto original online: https://www.imis.uni-osnabrueck.de/fileadmin/4_Publikationen/PDFs/BadeFabri.pdf (06/09/2020). Ver também http://www.afrika-hamburg.de/bismarcke.html (19/08/2020)

[9] Rainer Donandt, “Franz Andreas Meyer, der Erbauer der Speicherstadt [Franz Andreas Meyer, criador da Speicherstadt]”, incluído em: Jörg Schilling (ed.): Das Bismarckdenkmal in Hamburg 1906-2006 [O Monumento a Bismarck em Hamburgo 1906-2006], Arbeitshefte zur Denkmalpflege in Hamburg [Cadernos de trabalho sobre preservação do património em Hamburgo], Nr. 24, edição da Kulturbehörde Hamburg/Denkmalschutzamt [Ministério da Cultura de Hamburgo/Serviço de Defesa do Património], pág. 49, Hamburgo, 2006

[10] Franz Andreas Meyer, “Bericht an Senator Predöhl [Relatório ao Senador Predöhl]”, 3/11/1900, Arquivo Estatal de Hamburgo, Comité para o Monumento a Bismarck, A 2, vol. 2, 194, pág. 1-10, incluído em: Jörg Schilling, op. cit., pág. 33

[11] Os documentos encontram-se publicados em https://www.buergerschaft-hh.de/parldok/dokument/47328/haushaltsplan_2014_einzelplan_1_2_hamburg_2020_hamburg_sichert_die_kofinanzierung_fuer_den_erhalt_des_ensembles_bismarck_denkmal_alter_elbpark.pdf e em https://www.buergerschaft-hh.de/parldok/dokument/67998/sanierungsfonds_hamburg_2020_sanierung_und_instandsetzung_des_bismarck_denkmals.pdf (consultado a 19/08/2020)