Millicent Adjei

© Gisela Ewe

Millicent Adjei
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"Não quero que Hamburgo homenageie pessoas que tenham negado direitos a outros e que os tenham submetido a tratamentos desumanos."

ENTREVISTA: ANKE SCHWARZER

Quando pensa na história colonial e no momento presente, que lugar de Hamburgo lhe vem à mente?

Bom, eu sinto muito fortemente os bairros de Wandsbek e Jenfeld como lugares do presente colonial. Existem nomes de ruas com referências coloniais, como é o caso de Dominikweg, Wissmannstraße ou Schimmelmannstieg, bem como outros lugares coloniais, por exemplo o mausoléu de Heinrich Carl Graf von Schimmelmann, em Wandsbek-Markt. 

Em Jenfeld fica situada a antiga Caserna Lettow-Vorbeck, cujos relevos, integrados na fachada dos edifícios, honram criminosos coloniais. 

Além disso, o novo bairro de HafenCity, cuja construção ainda nem sequer foi totalmente terminada, afirma-se, de um modo bem marcante, como um local de continuidades coloniais. Também em Mönckebergstraße, uma das principais ruas comerciais de Hamburgo, existe uma loja de produtos coloniais, onde se vende chá, café e chocolate, cujo nome – Compagnie Coloniale – celebra a realidade desse passado colonial.

“Seria bom relatar a história da perspetiva de quem resistiu.”
Poderia descrever mais pormenorizadamente essas continuidades coloniais no novo bairro de HafenCity?

Do meu ponto de vista, o que ali está a ter lugar é uma romantização do colonialismo. As novas ruas e os edifícios recebem nomes que evocam figuras do passado colonial, bem como as próprias matérias-primas. Temos aí, na Kehrwiederspitze, a Columbus Tower– um edifício que recebe o nome de Cristóvão Colombo –, bem como praças com o nome de outros invasores: é o caso da Americo-Vespucci-Platz e da Vasco-da-Gama-Platz. 

Mais do que a escolha desses nomes, o que me incomoda é o facto de a convivência atual com eles estar a ser romantizada. A realidade colonial é atenuada pelo modo como dela se fala. Ao que parece, por aqui é perfeitamente aceitável prestar homenagem a pessoas que cometeram crimes contra a humanidade. É até considerado chique. É essa a minha perceção desta realidade.

Que espaço ou lugar escolheria para marcar e analisar, sob uma perspetiva crítica, a colonialidade na cidade de Hamburgo?

É importante que todos estes lugares que mencionei sejam marcados e que, a respeito deles, se disponibilize informação capaz de facultar uma visão crítica. O porto é um local central e um ponto de partida importante para esse efeito, até porque foi aí que chegaram as mercadorias vindas do mundo colonial. A partir de lá poderá ser realizada a marcação e análise crítica de todos os outros lugares situados fora desse centro.

Apesar de ser património mundial, a Speicherstadt ("Cidade dos Armazéns") não parece achar necessário referir todas as atrocidades que estiveram associadas à produção das mercadorias coloniais, precisamente os géneros cujo armazenamento no fundo justificou a construção desses edifícios. Essa informação poderá ser disponibilizada em museus, nos próprios edifícios ou também online. Existe ainda uma iniciativa chamada Hafengruppe (Grupo Portuário) que, juntamente com outras, nos passeios que organizam pela zona, proporcionam uma perspetiva crítica sobre o porto e sobre a Speicherstadt. Seria excelente se isso se tornasse a norma, se também nas visitas oficiais à cidade ou ao porto fosse incluída e apresentada aos turistas e outros visitantes uma perspetiva crítica sobre o que ali se pode ver. Esse seria o meu desejo.

De que forma poderia essa outra informação ser transmitida?

Penso que seria bom relatar a história da perspetiva de quem resistiu. Através de uma estela ou de um quadro informativo, por exemplo. Dessa forma, uma informação crítica passaria a estar disponível, embora isso não garanta nada, pois depende inteiramente das pessoas aquilo que elas depois fazem com essa informação. 

O que não quero, de todo, é que Hamburgo – na medida em que eu própria também integro a sociedade civil desta cidade – homenageie pessoas que tenham negado direitos a outros e que os tenham submetido a tratamentos desumanos. Isso, para mim, está fora de questão. Tem de se lhe pôr fim.

Tradução: Paulo Rêgo