Josephine Akinyosoye

© Anke Schwarzer

Josephine Akinyosoye
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"A ausência de monumentos à resistência é também parte destes vestígios coloniais"

INTERVIEW: ANKE SCHWARZER

Ao pensar no passado colonial e no presente de Hamburgo, há algum lugar desta cidade que lhe ocorra espontaneamente?

Ocorre-me, por exemplo, a Universidade de Hamburgo, que resulta do antigo Instituto Colonial, mas também a HafenCity, com a Columbus-Haus, e todos os outros edifícios de nomes de inspiração colonial, com a sua história e arquitetura marcadas pela experiência colonial. Além da Universidade de Hamburgo, poderá ainda ser mencionado o Museu Etnológico, agora Museum am Rothenbaum. Ou ainda o Jardim Botânico, o Instituto de Zoologia, vestígio da recolha e roubo de plantas e animais para efeitos de medicação e de investigação colonial. E em Sankt Pauli há o Instituto Tropical.

Existem também vestígios coloniais que nem sequer são visíveis. As lacunas, os espaços vazios ou em branco, a ausência de monumentos que recordem a resistência, de descrições de locais ligados à resistência, tudo isso constitui um vestígio do colonialismo. Lembro-me ainda da reação de elementos dos povos Ovaherero e Nama que participaram no congresso, de como ficaram chocados ao constatar a ostentação e riqueza da cidade, que se estendem desde o porto até Blankenese. Se seguirmos o rasto dessa riqueza, desse dinheiro, iremos também deparar-nos com vestígios coloniais, sejam eles monumentos, edifícios ou os próprios agentes económicos da cidade.

No âmbito da biologia, mais concretamente do Instituto de Zoologia, seria capaz de esclarecer melhor os antecedentes das coleções científicas desses vários lugares?

Não sou especialista, mas sei que a recolha de plantas, de animais e de objetos era parte de todo o projeto colonial — de resto, ocorre-me, a propósito, o Jardim Zoológico de Hagenbeck. Recolhe-se, rouba-se, expõe-se. Quando se percorre os arquivos e coleções da Universidade de Hamburgo, é possível ver a grande quantidade de recipientes de vidro contendo diferentes espécies que para cá foram trazidas e analisadas. Era um lugar de acumulação de conhecimento. Tudo deveria ser registado e documentado. Pretendia-se ser pioneiro no acesso a tudo isso, na captura dessas espécies. Na Universidade de Hamburgo houve, em termos de pessoal, muitos pontos de contacto com a instituição que precedente, o Instituto Colonial. Foi através de conhecimentos obtidos mediante a experiência colonial que disciplinas como a botânica, a geografia e a linguística alcançaram importância e renome, que se estabeleceram também como ramos da ciência.

Mencionou os espaços vazios, em branco. Como acha que deveriam, para além do que é visível, ser recordados esses vestígios invisíveis? Como deveria lidar-se com eles?

Há processos em curso que pretendem a mudança do nome de ruas. Nesses casos é muito importante que não seja apenas trocada uma placa, todo o processo deve envolver eventos de informação e de discussão pública. No entanto, não se trata apenas dos nomes das ruas: devia-se também alterar a designação de certos edifícios e instituições. Já na década de 1920 havia na Universidade de Hamburgo, ou melhor, no Instituto Colonial, muitos cientistas negros dos territórios colonizados que contribuíram para o progresso da ciência em Hamburgo, que traduziram e esclareceram quanto ao uso de determinados objetos. Podia-se fazer mais investigação sobre eles. O problema é que, muitas vezes, os seus nomes nem sequer são conhecidos e nos registos apenas surgem descritos como «ajudantes». Esse poderia ser precisamente o nome a dar ao edifício de um instituto.

Quais são as possibilidades de pôr em prática a descolonialização do espaço urbano sem estarmos sempre a deparar com os antigos vestígios? Como se pode criar lugares empoderadores?

"Quando se usa o termo «descolonialização», é muito importante que as mudanças não só salientem o seu caráter simbólico, como também que — tal como muitos teóricos da descolonialização têm defendido — proporcionem perspectivas económicas e anticapitalistas."

Mais do que concentrar os esforços no Monumento a Bismarck, é interessante criar mecanismos de apoio financeiro, por exemplo na Tanzânia, atribuir bolsas de estudo… De uma forma muito pragmática apoiar as pessoas afetadas pela realidade pós-colonial, as pessoas negras e as PoC (people of colour) em geral. Poderia haver apoios económicos para ocupação de tempos livres em centros juvenis ou centros de investigação onde as PoC e as pessoas negras pudessem lidar de forma autónoma com a sua história. Para lá das prestações simbólicas, é importante pensar no apoio económico e na redistribuição financeira. Também é urgente descolonizar as leis: dever-se reconhecer a exploração pós-colonial de recursos e a inundação dos mercados africanos com produtos europeus como causas de fuga. Há também que descriminalizar a fuga e o resgate marítimo, há que criar rotas legais de fuga para a Alemanha, há que possibilitar o direito incondicional de permanência para as pessoas que fugiram ou migraram para cá. Além disso, em relação aos refugiados, é preciso abolir práticas coloniais tais como a avaliação da idade das crianças menores ou ainda a restrição da liberdade e a colocação dessas pessoas em campos.

Tradução: Paulo Rêgo