Cristina Roldão

© Ana Cruz

Cristina Roldão
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"Estou interessada, como mulher portuguesa afrodescendente, em recuperar essa história."

ENTREVISTA: Marta Lança, 2020

Quais são alguns marcos da presença negra na grande Lisboa?

 

É um tema muito rico e com muitas possibilidades. Alguns trabalhos já têm feito esse mapeamento, tanto académicos como de associações, mostram e constroem uma narrativa sobre esses lugares, a associação Batoto Yetu [1] os percursos sobre Lisboa. Trabalhos mais antigos como Os Negros Em Portugal – uma Presença Silenciosa, de José Ramos Tinhorão (1988), a história das Confrarias em Portugal, de Didier Lahon, e todo o levantamento da historiadora Isabel Castro Henriques. A própria historiografia sobre a escravatura em Portugal: na altura, estavam interessados no mercado escravocrata da sociedade portuguesa, mas para alguém como eu, afrodescendente interessada em recuperar essa história, leio esses livros para tentar vislumbrar protagonistas que não puderam escrever, há sempre o trabalho de procurar ler nas entrelinhas. Também o livro Lisboa Cidade Negra, de Jean-Yves Loude, é uma entrada mágica nessa Lisboa negra. O livro do Mário Pinto de Andrade, As Origens do Nacionalismo Africano (1997), que faz toda a diferença ler crescendo em Portugal como afrodescendente, assim como os vários trabalhos sobre a Casa dos Estudantes do Império.

“Fui percebendo que a presença negra é uma longa história e mais espalhada do que se pensa.”

E mais recentemente?

 

E, claro, as coisas mais recentes que têm a ver com o trabalho coletivo, que fazem mapeamento por outros modos, de territórios vividos. Se olharmos para o rap crioulo, há uma referência territorial e comunitária sistemática. As batucadeiras [2] são protagonistas através da música, e do espaço predominantemente feminino, também elas com uma forte identificação com os seus territórios de vivência na periferia da Área Metropolitana de Lisboa. E claro, no cinema, na literatura, na poesia, nas artes plásticas, no teatro, na academia, etc. vão surgindo vozes que expressam, recriam essa presença negra e a sua leitura específica do Portugal do século XXI.

Selecione alguns exemplos de toda essa história de resistência e presença negra.

 

É muito difícil selecionar. Quando pensamos na presença negra, até ao 25 de abril, pensamos sempre em Lisboa. Há algumas coisas do Leite de Vasconcelos sobre Alcácer do Sal. Por causa dos ditos “pretos do Sado”, especula-se que tinham mais resistência à malária. Portugal era um país de paludismo a sul do Tejo, nas zonas dos arrozais e pantanosas, e porque não havia um sistema de saúde e de protecção social, com desinfestações, etc. 

E as condições laborais em que os trabalhadores ficavam 12 horas nas lezírias…

 

Sim, a exploração de trabalho e ausência de um Estado-Providência.

Fez o roteiro sobre “A presença negra na cidade de Setúbal – século XV a XVIII”. Como foi desvendar a presença negra em Setúbal?

 

Sobre Setúbal, propriamente, nunca se falava. É uma cidade conhecida pelo operariado industrial, as conserveiras, etc. Quando vim dar aulas para Setúbal, e na convivência com a historiadora Ana Alcântara, começámos a pensar que seria óbvio haver presença negra, pelo menos desde o séc. XVI. Desde o porto, à sua proximidade de Lisboa, o tipo de trabalho que existia entre as atividades piscatórias, nos portos, salinas e agrícolas. E a grande dinâmica de conventos e igrejas, pela presença da igreja Católica, que como sabemos era uma grande proprietária de escravos. Fizemos a pesquisa no âmbito do Roteiro de Educação Antirracista, uma iniciativa que envolveu uma equipa empenhada de docentes da ESE-IPS. Fizeram-se conferências, exposições. Em 2019, com Pedro Varela e José Pereira, fizemos a exposição Para uma história do Movimento Negro em Portugal, 1911-1933.  Mas não tínhamos tempo ou recursos para ir a fontes diretas, e mesmo assim não foi difícil, mal começamos a descascar aparecem coisas.

O que foi mais emblemático nesta incursão?

 

Começámos a perceber a presença negra através dos azulejos, documentos de alforrias, legislação (que nunca se faz sem haver um grupo com expressão social que a justifique). São exercícios de juntar peças, quase de detetive. E fomos desembocar na Igreja da Anunciada, que estaria certamente no bairro mais pobre da cidade, o bairro do Troino, que embora não possamos dizer que era uma espécie de Mocambo (da Madragoa), teria muita população negra. A igreja esteve ligada a uma confraria de homens negros, a Confraria Nossa Senhora do Livramento, fundada no início do século XVII provavelmente por pescadores. Dentro do espólio da igreja – das instituições que mais se especializaram em guardar coisas – descobrimos um busto de São Benedito. E ele está no espólio da confraria. Aquele busto quer dizer muitas coisas. Interessa o que o santo significa, haver o culto a um santo negro numa igreja, significa que havia uma forte presença negra na cidade. São Benedito era cultuado em Setúbal muito por causa das sezões ligadas ao paludismo e tem a ver com este imaginário do negro resistente à malária. Algumas pessoas brancas também eram devotas porque se acreditava ser um santo especialmente bom para curar o problema da malária. Para mim foi muito importante a descoberta e que se fale disto. Vamos tendo estudo das danças, de rituais, de procissões, toponímias, mas sinto falta de uma rede que ligue estes lugares para que deixem de ser epifenómenos, em Braga ou em Setúbal, e que consigamos ver Portugal negro. Este santo comunica com o da Igreja da Graça e com o que se encontra em Lagos, de uma pequena burguesia negra mestiça, que tem a ver com as Confrarias, que também comunicam entre si, ligadas ao Brasil, os Pretos do Rosário. Prevenindo a rebelião contra a escravatura, Padre António Vieira advertia “Não vos rebeleis que têm uma vida próxima de cristo”.

Parece que sempre nos vão dizendo que tudo começa nos anos 80, com a imigração. Mas sempre senti os sinais, as contradições e fui percebendo que é uma longa história e mais espalhada do que se pensa.

E que outro lugar fora de Lisboa-centro manifesta estes sinais?

 

Outro lugar pouco falado fica no Palácio Nacional de Sintra. Desde 1850 e tal, há um mapa que refere o dito Jardim da Preta, onde vemos um relevo de uma mulher negra numa posição algo dramática com um homem branco que se aproxima; entretanto já foi muito retocada. Não se percebe se ela está assustada com a presença dele, se há uma situação de corte nos bastidores da vida do palácio, para mim como mulher negra é um ideal-tipo da relação das mulheres negras com os homens brancos, nos bastidores daquilo que é o centro da vida social. As abordagens furtivas numa desigualdade sócio e étnico-racial profunda. É uma imagem muito violenta, sobre a qual é preciso fazer a história do ponto de vista decolonial.

A partir dessa imagem, começámos a puxar o fio do novelo, tentando perceber a época. O Palácio Nacional de Sintra está atravessadíssimo pela história colonial, os relevos, a esfera armilar por todo o lado, o mito do Quinto Império com o El Rei D. Sebastião e a relação mística com o colonial. Encontrámos documentação sobre os negros caiadores das chaminés de Sintra, alguns seriam escravos de ganho, a presença de escravos nas obras. Os dinheiros ligados à Casa da Mina, era preciso tirar dinheiro de lá para fazer as obras de reconstrução do Palácio de Sintra. Sintra apresenta-se sem sinais de presença negra, uma vila branca, eurocêntrica e aristocrática e depois percebe-se como está ligada à exploração de negros. Tudo isto tem de ser relido.

Como renarrar esta história de uma forma ampla?

 

Falta fazê-lo de maneira mais centrada nos protagonistas negros. A maior parte das pessoas que fazem estas histórias e tentam fazer a leitura destes artefatos, fazem-no sem financiamento, de modo precário e lento.

E o terceiro lugar? 

 

Na Quinta das Conchas e dos Lilases tens o que se tem considerado uma casa assombrada, assombrada por uma mulher negra que foi trazida de São Tomé para Portugal por Francisco Rendeiro, um roceiro, fazendeiro de São Tomé, profundamente ligado ao trabalho escravocrata. Ela seria santomense, sabe-se que terá nascido uma filha e terá vivido parte da sua vida numa jaula de dois por um metro, em parte dessa casa.

Veio com a sua fortuna das Roças e trouxe essa mulher, uma acompanhante?

 

Na perspetiva dela seria, alguém que foi sacada da sua terra e trazida para ser violentada sistematicamente. Ela foi uma sobrevivente de uma violência brutal.  

Como chegou à história dessa mulher?

 

Estou sempre à procura desses sinais. O registo não está propriamente escondido, às vezes está até no centro da mesa, mas ninguém seleciona como elemento relevante. É uma história que circula, por aí, que nos remete para o meio do século XIX. Do ponto de vista histórico, há pouco tempo. Ser uma história de uma mulher também é interessante, porque temos pouco, a não ser como figuras-tipo, as calhandreiras, as vendedoras de tremoço, uma ou outra figura, como a Fernanda do Vale [3]. Mas está aí uma geração que tem de contar esta história, do ponto de vista negro e feminista negro. Os homens ocupam sempre mais o espaço da narrativa e as mulheres nas margens. Mesmo as Confrarias são de homens, embora as mulheres tivessem atividades paralelas, como as eleições das Rainhas do Congo [4], na vivência recreativa e comunitária e estavam muito presentes. Como atualmente nos bairros, quem está na produção e organização são mulheres. Isso reproduz-se por todo o lado e tempo.

Que lugar elege para reforçar esta relação da cidade com a história colonial, fazendo ligações contemporâneas para a memória coletiva?

 

Há tantas coisas que gostaria de fazer… vou dizer dois. O Cais das Colunas, não consigo passar por lá sem imaginar uma caravela ao fundo e a chegada de gente negra àquele terreiro. Aquelas colunas são como dois fantasmas que não se deslocam e dizem que isto aconteceu aqui. 

Mas não tem qualquer referência, é um postal turístico…

 

No meu imaginário é aqui a entrada. Quando vejo o quadro do Chafariz de El Rei , sei bem que é mais ali entre Alfama e o Campo das Cebolas, mas imagino um terreiro atravessando toda aquela zona. Há uns anos atrás (em 2017) houve um tributo aos ancestrais no Cais das Colunas, organizado pelo Sinho (José Baessa de Pina) e o Aristóteles Kandimba [5], com um grupo de batucadeiras. Sentimos a conexão da história a partir daquele lugar, as mulheres sabiam muito bem o que estavam a fazer. Em Lisboa quase não temos isso, expressões contemporâneas da relação entre os negros que estão aqui hoje e os negros que cá estiverem. Não somos como os EUA ou o Brasil onde há uma continuidade genealógica. O Brasil, por exemplo, tem instituições com séculos, como o candomblé e os quilombos, através das quais conseguem recompor essa história. Aqui está tudo partido, o imaginário é que tem de fazer essa ponte. 
Em Portugal, nas contranarrativas persiste o olhar branco, arrependido (mas o dominante é o orgulho nacional), mas isso não substitui contar esta história do ponto de vista negro. Nesse Tributo aos Ancestrais, estavam mulheres que chegaram entre os anos 60 e 90, cujos ancestrais estiveram ligados ao trabalho contratado em São Tomé das plantações, com consciência que estavam a fazer uma cerimónia e com muita gente negra no centro da cidade, o que também é raro. No final lançámos flores ao rio. Esta história e pessoas são dignas de ser celebradas. Para uma criança negra é um modo de contranarrar a sua história.

E que outro lugar, a memorializar?

 

A própria casa da Quinta das Conchas. Podia-se reabilitar o edifício e fazer o lugar da presença da mulher negra em Lisboa. Íamos fazendo a recuperação, com os jornais antigos e toda a documentação Lisboa de 1500 até hoje. Saber quem foi esta mulher, que supostamente assombra a casa. Quem eram as mulheres da Casa dos Estudantes do Império. Quem foram as mulheres que estavam nas escadas vendedoras, nas escadas do Hospital do Rossio (1707), a quem a guarda estava sempre a bater e a destruir o que elas traziam. Estas mulheres organizaram-se e fizeram uma petição sobre a violência policial, reivindicando o direito ao lugar de trabalho, com os argumentos que têm muitas ligações à atualidade, dizendo: nós sempre estivemos aqui, não somos de fora.

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Notas

[1] A Associação Cultural e Juvenil Batoto Yetu Portugal trabalha com jovens e crianças interessados na cultura africana, provenientes de meios económicos mais ou menos desfavoráveis. A filosofia da associação baseia-se na convicção de que, independentemente das condições económicas e sociais de cada pessoa, o (re)conhecimento e valorização das suas raízes culturais é um fator essencial para a consolidação da sua autoestima e sentimento de pertença.  [Nota da entrevistadora tirada do site da Batoto Yetu].

[2] Intérprete ou executante de batuco (género musical cabo-verdiano baseado na percussão e no canto). [Nota da entrevistadora].
[3] Fernanda do Vale, conhecida como “Preta Fernanda” (1859–1927), foi uma cortesã e figura célebre da sociedade no fim do século XIX Lisboa. [Nota da entrevistadora tirada da wikipedia].
[4] Prática de comunidades negras escravizadas, em Portugal, no Brasil e noutros lugares. [Nota da entrevistadora].
[5] Escritor português de origem angolana, escreveu O Livro dos Nomes de Angola, onde compila nomes tradicionais de quase 20 idiomas diferentes do país. [Nota da entrevistadora].