Marcas do Império na Cidade de Lisboa

Marcas do Império na Cidade de Lisboa

O passado colonial português deixou marcas impressivas no espaço público nacional, sobretudo na cidade de Lisboa, a antiga capital do império. Estas marcas estendem-se até ao período pós-colonial, quando o império é resignificado, ora como lugar de comemoração da identidade nacional, ora como lugar da sua contestação por via da reclamação de uma memória mais justa e plural sobre o encontro colonial.  

Elsa Peralta
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O passado colonial português deixou marcas impressivas no espaço público nacional, sobretudo na cidade de Lisboa, a antiga capital do império. Estas marcas estendem-se até ao período pós-colonial, quando o império é resignificado, ora como lugar de comemoração da identidade nacional, ora como lugar da sua contestação por via da reclamação de uma memória mais justa e plural sobre o encontro colonial.

Enquanto paisagem saturada de uma memória do império, Lisboa concentra no seu espaço físico um conjunto de elementos simbólicos e materiais que remetem para uma representação e para uma vivência da cidade enquanto detentora de uma particular historicidade associada à expansão marítima e ao império português. Esta historicidade está impressa na materialidade da paisagem construída da cidade, em monumentos, museus e placas comemorativas, na sua organização espacial, nos maneirismos exóticos da sua arquitetura. De forma menos explícita, está também presente nas espécies tropicais da sua ornamentação vegetal, na presença quotidiana de populações oriundas (ou descendentes delas) das antigas colónias, na dieta alimentar. De forma invisível, ecoa ainda nos lugares vazios de memória, lugares nos quais não há lembrança impressa no espaço, como o Cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara, de onde partiram e chegaram sucessivas levas colonos e tropas mobilizadas em trânsito entre Portugal e as Áfricas, ou onde se depositaram milhares de caixotes dos “retornados” com os despojos do império. Por vezes de forma explícita e por outras em formas menos tangíveis, a memória do império colonial português estrutura a imaginação da cidade de Lisboa enquanto antiga capital do império colonial, agora concebida como cidade global pós-colonial.

Enquanto paisagem saturada de uma memória do império, Lisboa concentra no seu espaço físico um conjunto de elementos simbólicos e materiais que remetem para uma representação e para uma vivência da cidade enquanto detentora de uma particular historicidade associada à expansão marítima e ao império português. Esta historicidade está impressa na materialidade da paisagem construída da cidade, em monumentos, museus e placas comemorativas, na sua organização espacial, nos maneirismos exóticos da sua arquitetura. De forma menos explícita, está também presente nas espécies tropicais da sua ornamentação vegetal, na presença quotidiana de populações oriundas (ou descendentes delas) das antigas colónias, na dieta alimentar. De forma invisível, ecoa ainda nos lugares vazios de memória, lugares nos quais não há lembrança impressa no espaço, como o Cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara, de onde partiram e chegaram sucessivas levas colonos e tropas mobilizadas em trânsito entre Portugal e as Áfricas, ou onde se depositaram milhares de caixotes dos “retornados” com os despojos do império. Por vezes de forma explícita e por outras em formas menos tangíveis, a memória do império colonial português estrutura a imaginação da cidade de Lisboa enquanto antiga capital do império colonial, agora concebida como cidade global pós-colonial.

As geografias imaginárias do Império

É sobretudo a partir de meados do século XIX que a memória da expansão e as geografias imaginárias do império são inscritas de forma perene na paisagem simbólica da cidade de Lisboa, através de monumentos, da toponímia ou da estatuária. Em 1860 iniciam-se as obras de restauro do Mosteiro dos Jerónimos, finalizadas em 1910, quando o monumento é classificado como património nacional. Em 1867, a estátua de Camões é colocada num Largo também batizado com o nome do poeta. Na zona de Belém, surge em 1880, no ano das comemorações do Tricentenário de Camões, a Praça Dom Vasco da Gama e em 1901 constrói-se uma nova praça e jardim, a Praça Afonso de Albuquerque, onde é colocada uma estátua ao Vice-Rei e Governador da Índia. Simultaneamente, em várias zonas da cidade são criados novos topónimos associados à expansão ou à empresa colonial, como as Ruas Capelo, Ivens e Serpa Pinto, criadas em 1885 em homenagem a estes exploradores dos territórios africanos.

A glorificação do Império

Contudo, a verdadeira glorificação monumental do império na cidade de Lisboa concretiza-se durante o Estado Novo, sobretudo com a realização, em 1940, da Exposição do Mundo Português. Organizada em torno de um amplo espaço ajardinado – a Praça do Império –, a Exposição pressupôs um profundo rearranjo monumental e urbano da zona ocidental da cidade, deixando marcas duradouras na paisagem urbana de Lisboa. Também no plano da toponímia, o regime desenvolveu uma ação vigorosa no sentido de inscrever espacialmente uma memória abrangente do império em muitas zonas da cidade. Em 1933, atribuem-se os nomes de localidades do império aos arrumamentos do denominado Bairro das Colónias, então recentemente construído no centro da cidade de Lisboa, surgindo as ruas de Angola, Cabo Verde, da Ilha do Príncipe, da Ilha de São Tomé, de Macau, de Moçambique, de Timor, do Zaire e de Angola. Embora tenha sido rebatizado Bairro das Novas Nações após o 25 de Abril de 1974, coloquialmente o bairro nunca deixou de ser designado Bairro das Colónias, perpetuando no espaço, até hoje, as geografias imaginárias do império. Simultaneamente, o colonial embrenha-se progressivamente no espaço da cidade através da semântica institucional empregue na nomeação de escolas, organismos e edifícios institucionais. 

Mosteiro dos Jerónimos e Praça do Império, Lisboa, 1954. Foto: Mário Novais, © Biblioteca de Arte/Fundação Calouste Gulbenkian

Rearticulação da memória colonial

Depois da queda do Estado Novo em 1974 e da rápida descolonização que se seguiu, a estabilização democrática do país seria acompanhada da rearticulação da memória do império no espaço público nacional. O enorme esforço estatal para restaurar a legitimidade historiográfica do período de expansão marítima portuguesa através da ação da Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, criada em 1986, culminaria em 1998 na realização da Exposição Mundial de Lisboa, com o tema dos Oceanos. Tal como acontecera com a exposição de 1940, a Expo’98 compreendeu não só a montagem de uma exposição internacional, mas também um ambicioso projeto de regeneração urbana na zona oriental da cidade de Lisboa. Terminada a exposição, o espaço passou a denominar-se Parque das Nações e as suas ruas receberam os nomes dos navegadores portugueses ou aspetos alusivos ao império. Toda a poética do espaço (com teatros, pontes, escolas e ruas, batizados com nomes retirados do tema dos “Descobrimentos”) foi pensada para estabelecer uma forte intimidade com o antigo império, materializada na própria experiência do espaço.

Culturas de memória cosmopolitas e antigos mitos imperiais

As questões de identidade nacional passam então a ser reposicionadas por referência às demandas dos mercados de consumo e lazer, especialmente o turismo, compondo cada vez mais culturas cosmopolitas da memória nutridas a partir dos antigos mitos imperiais. Estes discursos deixam também a sua marca em processos de regeneração urbana – como os realizados no Bairro da Mouraria e das Praças do Martim Moniz e do Intendente – que têm como alicerce ideias de diversidade e interculturalidade, as quais são colocadas ao serviço da indústria turística, da gentrificação urbana e da construção de uma imagem cosmopolita da cidade de Lisboa.

Por uma nova cultura de memória

A impressão social e material do colonialismo no espaço urbano de Lisboa vai, assim, muito além do fim formal do colonialismo. Hoje uma cidade global, Lisboa é herdeira de arranjos espaciais e de morfologias sociais institucionalizadas pelo colonialismo, que continuam a exercer uma influência na construção e sustentação da narrativa da identidade nacional portuguesa em tempos pós-coloniais. Este não é, contudo, um processo inerte e impassível de transformação. Em alinhamento com o crescente movimento global de “decolonização” que se tem vindo a afirmar por todo o mundo, também em Portugal ganham força ações de memorialização contra-hegemónicas. Para isso muito contribuíram o trabalho de intelectuais, artistas e jornalistas e também a emergência de associações de afrodescendentes que, tomando uma posição relativamente à sua própria exclusão das grandes narrativas da história, têm vindo crescentemente a reclamar uma memória mais justa e inclusiva do passado nacional. Este movimento tem vindo a materializar-se em ações de forte contestação na cidade de Lisboa, como aquelas que foram dirigidas em 2017 à proposta da criação de um Museu das Descobertas ou à estátua do Padre António Vieira, mas também em ações que visam uma representação da história mais justa e plural, como é o caso da construção de um memorial em homenagem às pessoas escravizadas no Campo das Cebolas, como resultado da proposta apresentada em 2017 pela Djass – Associação de Afrodescendentes.

Re-Descoberta. Foto: @ Kiluanji Kia Henda 2007

Perenemente impressos no espaço simbólico de Lisboa, os mitos do império, tecidos por regimes sucessivos, continuam a estruturar a vivência da cidade, persistindo em formas de pensar e atuar, na política, na economia e em modos de relação social. Mas, lentamente, vão incorporando novos elementos e interpretações, esperemos que mais inclusivos, na grande narrativa da nação imperial portuguesa. Acompanhando essa lenta incorporação, também a cidade de Lisboa se transformará.