Lugares de memória pós-coloniais

Lugares de memória pós-coloniais

O conceito de lugar de memória no contexto do projeto ReMapping Memories Lisboa-Hamburg

A forma como uma sociedade lida com o passado reflete-se em várias manifestações da memória cultural. Mas como é que se produz a memória cultural e onde é que esta se situa? Em sociedades pluralistas, que conceitos fazem justiça à discussão do passado? E como pode a memória ser pensada a partir de uma perspetiva pós-colonial?

Jonas Prinzleve
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Com vista a explorar a questão de como as memórias coletivas são concretizadas e transmitidas numa sociedade moderna, o historiador francês Pierre Nora desenvolveu nas décadas de 1980 e 1990 a noção de “lugar de memória”. Num sentido mais restrito, esse conceito refere-se a lugares geográficos — como é o caso de sítios do património cultural, de museus ou monumentos — que Nora descreve como portadores de memórias coletivas. Mas para além disso, o lugar de memória representa, no entender de Nora, uma metáfora de tudo aquilo a que a memória coletiva está ligada e que lhe serve de orientação, ou seja, as tradições, as figuras míticas, as obras de arte, os rituais ou as personalidades históricas. Esta abertura conceptual faz com que ainda hoje o seu trabalho se mantenha relevante e significativo. Uma crítica fundamental à listagem realizada por Nora dos lugares de memória franceses é o facto de esta não levar em linha de conta a memória do colonialismo e da migração. Deste modo, uma grande quantidade de experiências acaba por ficar excluída da narrativa da memória nacional.

Um debate que ganha visibilidade

A evocação pública e a representação do passado influenciam não só aquilo que uma sociedade recorda, mas também o modo como negoceia a sua identidade atual. No entanto, a memória cultural não é, de forma alguma, delimitável, estática ou duradoura, mas antes diversificada e controversa, sujeita a um constante processo de mudança. Em sociedades pluralistas, um número crescente de iniciativas pós-coloniais tem vindo a chamar a atenção para as mundivisões coloniais e racistas que são transmitidas, entre outros meios, através de monumentos coloniais e nomes de ruas, veiculando mensagens que estão em contradição com princípios democráticos fundamentais. [1] Registam-se, em particular, as intervenções de ativistas, artistas e intelectuais — sejam eles negros, migrantes ou ligados a diásporas — em espaços culturais, académicos e políticos, com vista a libertá-los do simbolismo e da linguagem de cariz colonial. Enquanto antigas metrópoles coloniais, as cidades portuárias de Hamburgo e Lisboa são particularmente marcadas por lugares de memória com ecos do imperialismo. Contudo, onde se situam afinal tais lugares, em concreto? E como é que essas cidades, caraterizadas pela diversidade social, lidam com esse seu difícil legado?

Lugares de memória urbanos, vistos de uma perspetiva pós-colonial

Para responder a estas perguntas, o projeto ReMapping Memories Lisboa – Hamburg explora os lugares de memória urbanos a partir de uma perspetiva pós-colonial. Examina como as convicções racistas e patriarcais do colonialismo conseguiram sobreviver ao anúncio formal do seu fim – o que resulta, em parte, da ausência de uma reflexão e de uma marcação precisa, mas, por outro lado, também de uma alteração e adaptação deliberadas. Além disso, as interpretações do fenómeno colonial são desconstruídas através de contranarrativas histórico-biográficas ou artísticas. O objetivo consiste em contribuir para uma cultura de memória marcada pela vivacidade, que fortaleça muitas daquelas perspetivas que anteriormente eram ocultadas ou excluídas pelas conceções dominantes.

A fim de tornar visível a topografia colonial de Lisboa e Hamburgo, são mapeados sítios monumentais que claramente apresentam referências coloniais. No entanto, também os antecedentes históricos de instituições públicas, de empresas comerciais ou de bancos são investigados e devidamente localizados: esboça-se, por exemplo, a história da produção de conhecimento de âmbito colonial e racista, um processo que teve lugar em jardins botânicos e zoológicos, institutos médicos e universidades cujas implicações coloniais têm frequentemente sido esquecidas. Além disso, explorar-se-á também em que medida os métodos e práticas de planeamento urbano e de gestão populacional ensaiados nas colónias se repercutiram em Lisboa e Hamburgo.

Serão também investigados novos lugares de memória urbanos. Mais recentemente, tanto em Lisboa como em Hamburgo se procedeu à criação de espaços urbanos, cujas imagens projetadas para o exterior possuem claras referências históricas ao imperialismo e do colonialismo. A título de exemplo, o Parque das Nações, criado no decurso da Expo' 98, prossegue o discurso embelezador da história colonial de Portugal como uma história de modernização e de intercâmbio cultural. Do mesmo modo, a HafenCity , o novo bairro de Hamburgo erigido no local onde ficava o antigo porto colonial da cidade, apresenta a história expansionista da Europa, mas oculta qualquer referência à violência do poder colonial que se servia desse porto.

Recordar formas de resistência

O colonialismo e o comércio esclavagista suscitaram múltiplas formas de resistência organizada, tanto no interior das colónias como nas metrópoles coloniais. Em Lisboa, uma cidade com uma herança africana e afro-portuguesa de vários séculos, formou-se no início do século XX um movimento pan-africano de caraterísticas heterogéneas; contudo, na década de 1930 este veio a ser reprimido pelo regime do Estado Novo. Mais tarde, no início da segunda metade do século XX, um grupo de estudantes de Angola, de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, entre os quais se encontrava também Amílcar Cabral, apoiou a partir de Lisboa as lutas de libertação anticoloniais nas respetivas pátrias. Em Hamburgo, desde finais da década de 1920, inteletuais negros comunistas haviam fundado o International Trade Union Committee of Negro Workers , que em todo o mundo se empenhava contra o racismo e em prol dos direitos dos trabalhadores negros. Passados poucos anos, esse comité veio a ser desmantelado pelo regime nacional-socialista.

É frequente a história de resistência das comunidades marginalizadas, bem como as suas extensas realizações culturais e económicas, serem reprimidas da memória coletiva das sociedades pós-coloniais, correndo-se mesmo o risco de estas virem a ser esquecidas. O estudo da documentação e dos arquivos e respetiva divulgação são, por conseguinte, um passo importante na superação da perspetiva colonial na interpretação da história. Neste contexto, têm sido sobretudo iniciativas protagonizadas por migrantes e por comunidades na diáspora a fazer campanha por reformas que cumprem realizar no domínio da memória cultural. Diversas contribuições que integram este projeto são dedicadas a lugares de memória que tornam patentes as experiências e áreas de atuação de indivíduos negros e africanos, tanto em Lisboa como em Hamburgo. Em Lisboa, por exemplo, a iniciativa afro-portuguesa, Djass, obteve recentemente o compromisso da construção de um memorial e centro interpretativo que recordará a história e as vítimas do comércio esclavagista. Em Hamburgo, uma delegação namibiana de representantes dos Nama e dos Herero confrontou, em 2018, a cidade com o seu legado colonial, conseguindo obter um pedido oficial de desculpas, por parte do Senado, pelo envolvimento de Hamburgo no genocídio perpetrado por tropas coloniais contra os seus antepassados.

Nas paisagens urbanas de Lisboa e Hamburgo sobrepõem-se múltiplos vestígios de diferentes épocas e atores históricos. Em vez de olhar para essas duas cidades como estudos de caso que entre si nada têm a ver, o projeto ReMapping Memories Lisboa – Hamburg também focará a sua atenção na interdependência, ao nível da história europeia e global, de ambos os centros urbanos. Diferentes lugares de memória abordam momentos diferentes da história colonial comum e da resistência a tal dominação. Assim, não só será demonstrado o modo de operação das redes coloniais de comércio e de exercício do poder, mas também a solidariedade transnacional dos movimentos anticoloniais.

Tradução: Paulo Rêgo

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Notas

[1] Mais recentemente, os protestos contra o assassinato do cidadão norte-americano George Floyd, que teve motivações racistas, estimularam um pouco por todo o mundo discussões sobre monumentos históricos que glorificam o colonialismo.