Linhas de conexão

Linhas de conexão

Acerca do legado colonial comum das cidades portuárias de Lisboa e Hamburgo

Durante muito tempo, as cidades portuárias de Hamburgo e Lisboa contaram-se entre as metrópoles coloniais mais influentes da Europa. Foram importantes pontos de interseção na longa e violenta génese do mundo globalizado em que vivemos hoje. O legado colonial de ambas as cidades mostra uma multiplicidade de linhas de conexão.

Jonas Prinzleve
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Quem pretender examinar, de uma perspetiva crítica, a história do colonialismo e da escravatura europeus irá encontrar surpreendentemente poucas oportunidades para o fazer ao visitar Lisboa e Hamburgo. A história colonial é com frequência ocultada, ou até mesmo suavizada, nas suas manifestações em magníficas vivendas, em edifícios governamentais, em parques tropicais ou inclusive no modo como surge representada em exposições das coleções de arte dos museus. E isto, apesar de ambas as cidades portuárias terem em comum um difícil legado histórico resultante do seu envolvimento na história colonial e na prática esclavagista globais.

O ponto de partida desta história colonial, que liga as duas cidades, é Portugal, que no início da Era Moderna desempenhou um papel significativo no começo do colonialismo. Na primeira metade do século XV, um grupo de navegadores, cavaleiros e mercenários começou a explorar e estabelecer rotas marítimas a partir de Portugal, ao longo do Atlântico, até à Ásia e à África Equatorial e, a partir de 1500, também até à América do Sul. As primeiras expedições realizadas em caravelas foram com frequência empreendidas sob o patrocínio do infante D. Henrique. Na memória coletiva nacional, esse homem é hoje recordado e reverenciado como Henrique, O Navegador pelo papel que desempenhou como patrono dos descobrimentos portugueses. No Padrão dos Descobrimentos, monumento de importância central em Lisboa, situado em Belém, Henrique é imortalizado como líder de navegadores, colonizadores e missionários.

Trabalhos preparatórios da Exposição do Mundo Português realizada em Lisboa em 1940. Foto: Horácio Novais (1910-1988), © Fundação Calouste Gulbenkian

O objetivo das viagens à África Ocidental, para além da cristianização, era acima de tudo contornar os domínios hostis sob influência muçulmana no Mediterrâneo. Pretendia-se, assim, obter um acesso sem restrições ao ouro e ao marfim que as caravanas dos árabes e berberes traziam, através do deserto do Sara, para o sul da Europa, onde essas preciosidades eram objeto de um lucrativo comércio. Não sendo encontrado ouro, os grupos expedicionários raptavam homens, mulheres e crianças ao longo das costas da Mauritânia e do Senegal e transportavam essas pessoas para as cidades de Lagos, Lisboa ou Porto, a fim de aí as venderem.

O tráfico humano como pedra basilar do bem-estar

O comércio de pessoas escravizadas era prática comum em toda a região mediterrânica e a procura era elevada. Não foi apenas a nobreza portuguesa que financiou as arriscadas expedições portuguesas: muitos comerciantes europeus abastados, entre eles holandeses, ingleses, genoveses, venezianos e alemães, participaram desde bastante cedo no negócio africano.

Ao avançarem até à África Equatorial, os portugueses não tardaram em experimentar a utilização sistemática de grandes grupos de pessoas escravizadas como força de trabalho para as plantações de cana-de-açúcar, por exemplo na ilha de São Tomé e Príncipe, na África Ocidental. No início do século XVI, Portugal exportou este modelo económico através do Atlântico e implantou-o no Brasil. Os elevados lucros obtidos pelo reino português despertaram o interesse de outras potências coloniais europeias. Com a colonização das ilhas das Caraíbas, teve início uma nova fase da exploração da mão de obra humana e o tráfico de pessoas atingiu dimensões sem precedentes.

O desenvolvimento deste comércio entre a Europa, a África e a América – tanto do Norte como do Sul – deu origem a um sistema económico pré-industrial e transatlântico, baseado no roubo de terras e na escravização. Este comércio colonial fez com que Lisboa (e mais tarde também Hamburgo) se tornasse uma das cidades mais prósperas da Europa.

Relações comerciais entre Lisboa e Hamburgo

Embora Lisboa e Hamburgo estivessem, já antes, ligadas por relações comerciais, foi especialmente durante o século XVII que estas se intensificaram, como descreve a historiadora alemã Jorun Poettering. “Enquanto Lisboa se tornou o centro de um império comercial que se estendia da Ásia até África e daí até às Américas, a relevância de Hamburgo no comércio teve por base a sua função como porta de entrada para o interior da Europa Central.” 

Os comerciantes da cidade-estado independente de Hamburgo forneciam sobretudo madeira, metais e cereais a Lisboa. Foram estes bens que tornaram possível a construção naval, o fabrico de armas e que garantiram os víveres essenciais para a expansão portuguesa. Em troca, os comerciantes sediados em Hamburgo recebiam, através de Lisboa, mercadorias coloniais como os corantes, as especiarias, o açúcar ou o tabaco.

Tanto Lisboa quanto Hamburgo, mas sobretudo a capital portuguesa, eram já em finais do século XVI cidades de migração, que recebiam trabalhadores e comerciantes das mais variadas origens e religiões. Negociantes ricos da Ásia e de África frequentavam Lisboa e estabeleciam aí os seus contactos, enquanto escravos fugidos e livres viviam e trabalhavam nos bairros pobres da cidade. Comerciantes dos Países Baixos, da Alemanha e da Inglaterra faziam viagens de negócios até à cidade à beira do Tejo ou optavam por aí se estabelecer: eram atraídos pelos lucros do comércio colonial, embora fossem com frequência também aliciados pela Coroa portuguesa, que assim esperava atrair investimentos nas expedições coloniais.

Entretanto, a partir do início da década de 1580, haviam-se estabelecido em Hamburgo não só comerciantes ingleses e holandeses, mas também, e em cada vez maior número, judeus portugueses e cristãos-novos que tinham fugido da Península Ibérica, para escaparem à perseguição realizada pela Inquisição. Ainda hoje podem ser encontrados vestígios da sua presença nas inscrições em português das lápides existentes em diversos cemitérios judaicos da cidade hanseática. O maior e mais antigo desses cemitérios encontra-se no bairro de Altona, em Hamburgo, e foi criado em 1611.

Pedras tumulares de judeus portugueses no Cemitério Judaico de Altona, em Hamburgo. Foto: © Susanne Mu, Wikimedia Commons, sob licença de: Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported

Durante muito tempo, a historiografia atribuiu erroneamente um papel determinante à diáspora judaica, nos primeiros tempos da modernização económica da Europa. No entanto, essas comunidades, que surgiram um pouco por todo o mundo, viram-se quase sempre – em resultado de práticas discriminatórias tanto a nível social como legal – relegadas para uma posição de desvantagem em comparação com outros comerciantes.

Também em Hamburgo a comunidade judaico-portuguesa, a “Natio Lusitana”, formava um grupo que, embora fosse tolerado, vivia predominantemente isolado, estando sujeito à imposição de múltiplas obrigações suplementares. A título de exemplo, os portugueses em Hamburgo viam-se afetados por extensas restrições ao comércio, não eram autorizados a praticar a sua religião em público, para além de não se poderem considerar completamente a salvo da Inquisição. Assim, caso viajassem de volta para Portugal ou Espanha, com vista a reforçar as relações comerciais que mantinham com esses países, eram grandes os riscos que corriam. Porém, aos comerciantes de Hamburgo estabelecidos em Lisboa foram concedidos vários privilégios: gozavam de ampla liberdade, tanto ao nível da sua atividade comercial como em relação à sua prática religiosa, podiam ocupar os mais diversos cargos e viajar para a cidade hanseática a seu bel-prazer. Em geral, integravam-se rapidamente na sociedade portuguesa e ascendiam às classes altas.

Em virtude das suas variadas relações comerciais, os comerciantes de Hamburgo tiveram a oportunidade de participar de um modo direto no comércio colonial e esclavagista. Lucraram não apenas com a compra e consequente venda para consumo dos bens coloniais, como também investiram ativamente na própria logística do comércio colonial. Este modelo de negócio caraterizou o comércio colonial da cidade alemã até finais do século XIX. Enquanto em fins do século XVII, o auge político-económico de Lisboa estava já a chegar ao seu término, Hamburgo conseguiu assegurar e até mesmo expandir a sua participação no comércio colonial. Não obstante a irrelevância política que, comparativamente, caraterizava Hamburgo, os comerciantes dessa cidade-estado intervieram na atividade comercial de grandes potências coloniais como os Países Baixos, a Dinamarca, a Inglaterra ou a França, todas elas envolvidas no comércio esclavagista ao longo da costa da África Ocidental, bem como na economia de plantação praticada nas ilhas das Caraíbas. Os comerciantes de Hamburgo garantiram-lhes investimentos, puseram navios à disposição e armazenaram e processaram bens coloniais como o açúcar, o tabaco, o cauchu e os têxteis.
A memória hoje: omissões e reinterpretações

De que modo se recorda, actualmente, este passado em ambas as cidades? Que destaque é dado à violência colonial, na qual se baseou uma parte significante da riqueza de qualquer desses centros urbanos? A forma como o passado é recordado ou esquecido no espaço público está intimamente ligada aos interesses políticos e económicos dominantes do presente. Aquilo que a antropóloga portuguesa Elsa Peraltaconstata em relação a Lisboa pode também ser aplicado a Hamburgo: o centro urbano de ambas as cidades carateriza-se por uma competição constante pela grande quantidade de visitantes e pelas receitas geradas pelo turismo. Muitas das atrações turísticas lançam um olhar nostálgico sobre impérios passados, sobre o comércio colonial e sobre a época dos chamados descobrimentos. Nos centros de ambas as cidades permanecem em grande parte invisíveis quaisquer perspetivas que tematizem a memória das comunidades na diáspora e dos grupos de migrantes que foram afetados pelo colonialismo e pelas suas consequências. Por exemplo, a maioria dos museus e exposições em torno da histórica Speicherstadt de Hamburgo não faz qualquer referência ao tráfico de seres humanos, ao roubo de terras e aos trabalhos forçados em que se baseou o negócio colonial transatlântico.

Em qualquer das duas cidades, séculos inteiros de uma história de violência não só são frequentemente omitidos do discurso público, como ainda são reinterpretados sob a forma de uma tradição marítima e cosmopolita. Por exemplo, uma visita ao porto histórico de Hamburgo – uma área da cidade em que está a ser levado a cabo um dos maiores projetos de construção e desenvolvimento urbano da Europa, a chamada HafenCity – equivale a uma espécie de desfile das celebridades da globalização europeia. Logo à entrada para a Speicherstadt, antes de atravessar uma ponte, o visitante dá de caras com estátuas em tamanho superior ao natural que representam Cristóvão Colombo e Vasco da Gama; mais adiante, na HafenCity, os novos edifícios e praças públicas foram cerimoniosamente batizados de Columbus-Haus, Humboldt-Haus, Vespucci-Platz ou ainda Magellan-Terrassen.

Também em Lisboa, a história da cidade é comercializada como parte de uma imagem marítima e cosmopolita. Sendo a capital do país, Lisboa é o centro da política simbólica nacional e forma uma verdadeira mistura de referências variadas à chamada “Idade de Ouro dos Descobrimentos”, o mais importante mito nacional de Portugal. A expressão dessa narrativa foi-se estabelecendo profundamente na paisagem urbana logo a partir de finais do século XIX, mas sobretudo durante a Primeira República (1910-1926) e durante a ditadura fascista do Estado Novo (1933-1974), em parte para granjear apoio às políticas expansionistas coloniais.

Após o fim da ditadura, símbolos como caravelas e cruzes – bem como os nomes de figuras ligadas ao comércio esclavagista e de oficiais coloniais – permanecem omnipresentes na Lisboa pós-colonial. Durante a Expo ‘98, por exemplo, foi comemorado em Lisboa o 500º aniversário da chegada de Vasco da Gama à Índia. Entre a espetacular arquitetura pós-moderna do local da Expo contam-se construções como a Torre Vasco da Gama, com mais de 100 metros de altura, ou o Teatro Camões, bem como a Ponte Vasco da Gama, que atravessa o Tejo e é a mais longa da Europa. Contudo, as numerosas referências positivas à história da expansão portuguesa ocultam a íntima ligação existente entre a “descoberta do Novo Mundo” e o início da história colonial na Era Moderna, bem como da escravatura em grande escala. Também o facto de uma parte significativa dos trabalhos de construção realizados em toda a zona da Expo ‘98 ter sido realizada por migrantes africanos e afro-portugueses não foi sequer mencionado durante as cerimónias de abertura nem no âmbito das exposições.

Iniciativas variadas para uma paisagem de memória diferente

São sobretudo os membros das comunidades na diáspora e de grupos de migrantes que se empenham por uma mudança nas paisagens de memória urbanas. Em Lisboa, a Djass, uma associação de afrodescendentes, conseguiu com sucesso pôr em marcha a criação de um memorial dedicado às vítimas da escravatura. Junto à margem do Tejo será erguida uma plantação de cana-de-açúcar em alumínio preto – por sinal, bem perto das paredes soterradas da antiga Casa de Ver-o-Peso. Em Hamburgo, as iniciativas pós-coloniais, impulsionadas por comunidades migrantes ou na diáspora, têm-se manifestado na elaboração de um plano de ação da memória pós-colonial, em conjunto com as autoridades da cidade, no âmbito do qual sejam marcados e reinterpretados os muitos indícios do colonialismo que permanecem no espaço urbano.

Um monumento colonial que é alvo de protestos. A estátua a Vasco da Gama diante da Speicherstadt, em Hamburgo. Foto: © afrika-hamburg.de  

Nas antigas metrópoles coloniais de Lisboa e Hamburgo pretende-se quebrar, de forma duradoura, o silêncio público a respeito do colonialismo e do comércio esclavagista. Os mapas online deverão contribuir para esse efeito e permitir conhecer as várias camadas da história colonial de ambas as cidades enquanto património comum e partilhado. 

Outubro 2020

Tradução: Paulo Rêgo

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Bibliografia

Daniel Cattier, Juan Gélas, Fanny Glissant: Slavery Routes - A Short History of Human Trafficking [Rotas da escravatura – Uma breve história do tráfico humano], minisérie de TV, Canal Arte, 2018

Jorun Poettering: Handel, Nation und Religion: Kaufleute zwischen Hamburg und Portugal im 17. Jahrhundert [O comércio, a nação e a religião: Os comerciantes entre Hamburgo e Portugal no século XVII], Vandenhoeck & Ruprecht, Göttingen, 2013

Elsa Peralta, Nuno Domingos: «Lisbon: reading the (post-)colonial city from the nineteenth to the twenty-first century» [Lisboa: uma leitura da cidade (pós-)colonial do século XIX ao século XXI], in: Urban History, volume 46, Issue 2, May 2019, pp. 246-265 (publicado online em https://www.cambridge.org/core/journals/urban-history/article/abs/lisbon-reading-the-postcolonial-city-from-the-nineteenth-to-the-twentyfirst-century/CAFBCD1FC72C16A8237EE23CEB918381)