Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo

© Nicole Benewaah Gehle 2021

Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo

Hamburgo e a arte do Benim roubada há mais de 120 anos

Jonas Ehrsam
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Em todo o mundo, os bronzes do Benim que figuram nos museus contam-se entre os objetos mais valiosos das respetivas coleções. Também os preços por eles alcançados no mercado da arte dão conta dessa importância. Em 1897, estas peças em metal fundido foram na sua maioria pilhadas da capital do Reino do Benim – cujo território integra a atual Nigéria –, quando esta foi conquistada por tropas britânicas. Pouco depois, o Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo (MKG – Museum für Kunst und Gewerbe) passou a participar ativamente no súbito aumento da procura de objetos artísticos provenientes da Cidade do Benim.

A diáspora dos bronzes do Benim 

Desde o século XV que na Cidade do Benim, a capital do Império Edo — situado no território da atual Nigéria —, foram realizados trabalhos com metal fundido vertido em moldes, segundo o elaborado processo da cera perdida. A variedade de artefactos produzidos pela guilda dos fundidores de bronze, que se encontrava associada ao palácio do Oba — o monarca do povo Edo —, ia desde objetos mais pequenos até placas com figuras em relevo, que representavam indivíduos com importância histórica, incluindo ainda bustos comemorativos de uma qualidade bastante realista. Em 1897, aquando de uma invasão realizada em grande escala, as tropas britânicas saquearam o palácio do Oba de Benim, apoderando-se de muitos objetos que encontraram na corte, incluindo grandes quantidades de marfim e milhares destes trabalhos em metal fundido, atualmente conhecidos como os Bronzes do Benim. Como resultado de tais saques, importantes relíquias sagradas, bem como as insígnias do poder que antes governava a sociedade Edo e ainda documentos que registavam a história social daquela cultura, foram furtados e retirados do continente africano. Presentemente, os Bronzes do Benim contam-se entre os artefactos mais conhecidos e mais controversos na posse de museus europeus. Contam-se em milhares os objetos que na atualidade integram coleções fora da Nigéria — e salvo raras exceções, todos eles provêm do complexo palaciano destruído em 1897. Tais bronzes constituem objetos bastante cobiçados por colecionadores privados, sendo para além disso considerados impulsos pioneiros para a arte moderna que veio a desenvolver-se na primeira metade do século XX. Nas últimas décadas, algumas dessas peças fizeram com que, no mercado da arte, fossem movimentadas quantias que ascendem aos milhões.

A conquista da Cidade do Benim em 1897 

Ao longo do século XIX, a Grã-Bretanha foi travando numerosas guerras no continente africano. Também a campanha militar contra o Reino do Benim constitui um dos conflitos de pequena escala que serviram para consolidar o poder do Império Britânico. Frequentemente conduzidos de forma assimétrica, tais conflitos visavam desestabilizar as estruturas políticas existentes e estabelecer novos sistemas de poder colonial, para conseguir um melhor controlo dos territórios.
O ataque ao Reino do Benim, em 1897, inseriu-se nessa lógica: uma vez que o comércio mantido com os intermediários locais estava a ser problemático, o vice-cônsul James R. Philips decidiu dirigir-se ao líder político do reino, Oba, um indivíduo chamado Ovonramwen Nogbaisi, para o incitar a abrir mais o seu reino ao comércio. Philips ignorou as advertências que apontavam no sentido de que o líder político e religioso se encontrava nessa altura a assistir a uma cerimónia e não poderia ser contactado. A missão de Phillips acabou por ser surpreendida, tendo sofrido uma emboscada a 4 de janeiro de 1897, da qual apenas dois britânicos escaparam com vida.
Em todo o mundo, o caso ficou conhecido como o Massacre de Benim. Os comunicados de imprensa retrataram o Benim como um misterioso reino africano onde imperava a barbárie. Os preparativos para uma campanha militar que foi declarada enquanto «expedição punitiva» não tardaram a ser iniciados: apesar da escala considerável da operação, duraram apenas algumas semanas. A 12 de janeiro, depois de Harry Rawson ter recebido ordens para comandar tal expedição, foram reunidos navios provenientes de Inglaterra, Malta, da Gâmbia e da Cidade do Cabo. Logo a 9 de fevereiro teve início a chamada Benin Punitive Expedition. As forças de combate, que contavam com mais de 1200 homens, demoraram nove dias a chegar à Cidade do Benim. O destino da cidade acabou por ser selado em grande parte pela superioridade tecnológica dos soldados britânicos, que fizeram uso de metralhadoras (as então «modernas» Maxim guns), de lanchas fluviais e de foguetes, estes ainda pouco aperfeiçoados.
Após a captura, as tropas saquearam o palácio e respetivos anexos, bem como os santuários da cidade. Entre os despojos encontravam-se figuras em bronze fundido, placas em relevo e peças comemorativas com a forma de cabeças, além de presas de elefante, umas ainda por esculpir e outras já terminadas, e ainda outros artefactos. Embora o valor material dos objetos em bronze parecesse reduzido, a qualidade da sua execução artesanal revelou-se convincente. Membros da expedição tiraram fotografias que documentam o modo como as peças foram reunidas para serem depois transportadas para Lagos. Além do mais, também um incêndio contribuiu para a destruição, ao qual sucumbiram partes da cidade e ainda numerosos exemplares de bronzes do Benim, pouco tempo depois de terem sido capturados. A conquista, a destruição e o roubo, mas em larga medida também o exílio de Ovonramwen Nogbaisi, foram, todos eles, fatores que desestabilizaram o Reino do Benim e abriram à força aquele território aos interesses do comércio colonial. Pouco tempo depois, em 1900, foi formado o Protetorado do Sul da Nigéria, que incluía o antigo Reino do Benim, e em 1914 veio a ser fundido com o Protetorado do Norte da Nigéria, que deu origem a uma única colónia.

Hamburgo veio a revelar-se um importante centro dos desenvolvimentos ocorridos a partir de 1897. Poucos meses após a expedição militar britânica, Justus Brinckmann, o primeiro diretor do Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo, esteve envolvido na aquisição de peças em metal fundido provenientes do Reino do Benim. Com a atenção pública que a partir daí foi evidenciada — tanto da parte de especialistas quanto dos meios de comunicação mais populares — , reconheceu-se o prestígio de que esses objetos artísticos atualmente gozam. Além disso, ao atuar como mediador e revendedor, o diretor do museu participou desde cedo na dispersão dos Bronzes do Benim. No entanto, os vestígios desses artefactos e a sua passagem por Hamburgo têm muito mais que se lhe diga. 

O Museu de Artes e Ofícios (MKG — Museum für Kunst und Gewerbe) está situado muito perto do centro de Hamburgo. Justus Brinckmann, o primeiro diretor dessa instituição, esteve envolvido desde cedo no comércio dos Bronzes de Benim e contribuiu bastante para que se tornassem conhecidos. Foto: Jonas Ehrsam 2021

A chegada a Hamburgo dos bronzes do Benim 

A tomada da Cidade do Benim por parte das tropas britânicas em fevereiro de 1897 consolidou a influência política da Grã-Bretanha na região entre Lagos e o delta do Níger. A conquista da cidade acarretou a realização de pilhagens, que não deverão ser erroneamente interpretadas como um mero excesso ocorrido de modo espontâneo. Já aquando do planeamento da campanha, os responsáveis partiram do princípio de que haveria uma grande quantidade de marfim na cidade, suficiente para cobrir os custos da ação militar. No entanto, a descoberta de tamanha quantidade destes artefactos, elaborados em bronze, parece ter sido surpreendente, ou pelo menos não estavam a contar com ela.

Os achados foram recolhidos nos santuários da cidade, bem como em todo o palácio e respetivos anexos, divididos entre oficiais e vendidos a preço especial aos soldados que participaram na ação. Tanto o marfim como os bronzes, bem como outros objetos com valor artístico, partiram na posse do exército invasor, deixando a Cidade do Benim. Foi desse modo que a maior parte dos Bronzes do Benim atualmente conhecidos chegou a Lagos e, por fim, a Londres. No entanto, os primeiros objetos surgidos na Alemanha comprovam precisamente que nem todos os artefactos que hoje em dia integram colecções pelo mundo fora terão seguido esse mesmo caminho. Foram muitas as peças que chegaram ao porto de Hamburgo, vindas diretamente da África Ocidental, sem terem passado por Londres.

Uma fatura do Museu de Artes e Ofícios (MKG) de Hamburgo, datada de 13 de setembro de 1897, regista a compra de uma «árvore-fetiche» e de uma «cabeça de bronze» pela quantia de 2000 marcos. O vendedor foi Friedrich Erdmann, um jovem alemão que trabalhava para a Bey & Co, uma casa comercial na costa sul da Cidade do Benim. Justus Brinckmann foi o comprador. Segundo ele, teria sido o próprio Erdmann a retirar as peças dos escombros da cidade e a pô-las a salvo. Ambos os artefactos encontram-se ainda hoje em Hamburgo. Brinckmann estava perfeitamente ciente da sua origem. A invasão do Reino do Benim foi noticiada por todo o mundo e também a imprensa diária de Hamburgo acompanhou os acontecimentos no Golfo da Guiné. No entanto, o diretor do MKG pouco sabia acerca dos artefactos, da sua utilização e daquilo que representavam. Ainda assim, reconheceu-lhes, com base no modo de representação e nas técnicas de fabrico usadas, o notável valor enquanto obras de arte africana (subsariana). Uma descoberta que utilizou em seu próprio benefício.

Justus Brinckmann e o Museu de Artes e Ofícios 

O Museu de Artes e Ofícios (MKG – Museum für Kunst und Gewerbe) é uma das instituições mais estabelecidas na paisagem museológica de Hamburgo. Com efeito, ocupa, desde 1874, o local onde atualmente ainda funciona: Steintorplatz, uma praça no bairro de Sankt Georg.
A fundação da associação que instituiu o museu resulta de uma iniciativa da Sociedade Patriótica e inspirou-se em outros museus de artes e ofícios estabelecidos na segunda metade do século XIX, por exemplo em Kensington e Viena. Desse modo, também o MKG seguiu a estratégia de, através da exibição tanto de objetos históricos como contemporâneos, mas sempre dotados de especial qualidade, influenciar em Hamburgo o estilo e a tecnologia, tanto da indústria como do artesanato. Enquanto repositórios de conhecimento sobre a industrialização e a produção em massa, os museus de artes e ofícios apoiaram a popularização do design e da estética. Nas palavras de Justus Brinckmann, o grande impulsionador do MKG, esta instituição de Hamburgo destinava-se assim a ajudar «a educar o gosto e elevar o nível artístico do artesanato».
Ainda que os museus de artes e ofícios possam ter servido também outros interesses, não deixa de ser evidente que a fundação de novos museus de etnologia ou de história natural visou estabelecer uma diferença em relação àquilo que os precedeu, as Kunstkammern («câmaras de arte») ligadas à corte. Enquanto estas pretendiam esclarecer acerca de todo o cosmos através da justaposição de objetos naturais e de artefactos produzidos pela mão humana, os objetivos dos museus de artes e ofícios centravam-se na qualidade técnica do artesanato e na sua apresentação pública.
Tal como as outras instituições que descenderam das Kunstkammern, os museus de artes e ofícios viram-se confrontados com a tarefa de apresentar uma visão daquilo que era distante, bem como uma visão do passado. Foram instituições criadas numa fase precoce da globalização, cuja missão consistia em tornar acessíveis às sociedades europeias os modos de fabrico e de representação utilizados pelo mundo fora.

No decurso do congresso anual da Sociedade Alemã de Antropologia, Etnologia e Pré-História, a 10 de novembro de 1897 Brinckmann proferiu uma palestra sobre a sensacional descoberta dos «Bronzes do Benim»: a possibilidade de exibir os objetos originais impressionou bastante o público especializado que assistia. Mas estes não seriam os únicos artefactos que chegaram à Alemanha cuja proveniência pôde ser rasteada até à atividade desenvolvida por Erdmann ou pela Casa Comercial. Em 1898, Felix von Luschan, diretor-assistente do Museu de Etnologia de Berlim e importante concorrente de Brinckmann, adquiriu 271 peças provenientes do Benim à Bey & Co, 183 das quais foram guardadas para a coleção de Berlim (cf. Völger 2007: pág. 218). E existem também registos de pelo menos 15 aquisições semelhantes por parte do Museu de Etnologia de Hamburgo, tanto através da Bey & Co como da família Erdmann.

O facto de viver em Hamburgo proporcionou a Brinckmann diversas oportunidades para, logo que possível, obter os objetos de arte que cobiçava. Por exemplo, através de Albert Thomsen — um fornecedor de aprestos marítimos que estava sediado na Hopfenstraße, no bairro de Sankt Pauli, e dispunha de bons contactos no porto — conseguiu adquirir artefactos de bronze do Benim, que chegavam a Hamburgo integrados no tráfego colonial de mercadorias correntes. Também os membros das tripulações que viajavam entre Hamburgo e a África Ocidental chegaram a fazer ofertas a Brinckmann. Em janeiro de 1898, por exemplo, um marinheiro chamado Ernst Heinz, também ele de Sankt Pauli, propôs ao MKG a compra de um artefacto comemorativo que representava uma cabeça. A historiadora de arte Silke Reuther contabilizou mais de 50 objetos originários do Benim que Brinckmann guardou, revendeu ou cuja venda intermediou (cf. Reuther 2018). As peças seguiram para museus em Leiden, Berlim e Hamburgo, entre outros lugares.

Até hoje, a fundição de metal continua a ser um ofício na Cidade do Benim, sendo praticado em moldes tradicionais. Num trabalhoso processo que se assemelha ao original, ainda hoje são criados objetos com temas mais clássicos ou de aspeto mais moderno. Foto: Jonas Ehrsam 2020

Placa em relevo com a representação de um combate. Início do século XVII, Benim. Fonte: Coleção MKG, Hamburgo

Placa em relevo que representa três dignitários. Último quartel do século XVI, Benim. Fonte: Coleção MKG, Hamburgo

O antigo Reino do Benim

O antigo Reino do Benim, que remonta a cerca de 900 d.C., tinha tido, desde o século XV, contacto com diferentes potências coloniais que desenvolviam as suas atividades nas regiões costeiras de África Ocidental. Enquanto potência local de suma importância, este reino situado entre Lagos, a oeste, e o delta do Níger, a sudeste, franqueou o acesso aos recursos daquele território, primeiro a comerciantes e expedicionários portugueses, depois holandeses e mais tarde ingleses. Já nos séculos XV e XVI encontravam-se por lá comerciantes portugueses a adquirir pimenta-da-guiné, ouro e marfim. A partir de então, o reino também se tornou um centro do comércio transatlântico de pessoas escravizadas, proporcionando, em virtude da sua localização geográfica, uma boa ligação entre o interior do território e os entrepostos comerciais europeus ao longo da costa. Em troca, os metais já fundidos que eram obtidos nas minas europeias puderam chegar à região e ao reino. Estes eram comercializados, entre outras coisas, sob a forma das chamadas «manilhas», argolas metálicas com o tamanho de pulseiras que não tardaram a funcionar como moeda de troca. Investigações antigas apontam para o facto de a casa comercial da família Fugger, entre outras, desempenharem um papel importante no comércio de metais que entravam na África Ocidental via Portugal. Para o Reino do Benim, as manilhas eram de tal como importantes — depois de derretidas forneciam o material para a produção dos artefactos em bronze —, que a sua função como meio de pagamento foi, por diversas vezes, documentada na arte da corte.

No século XIX, a Grã-Bretanha estabeleceu-se por fim como mais influente potência hegemónica da região. Com a realização da Conferência de Berlim, entre 1884 e 1885, na qual foram tomadas decisões acerca da partição de África, consolidou-se essa supremacia, o que conduziu à posterior formação da colónia britânica da Nigéria. No entanto, também desde a década de 1850 as casas comerciais alemãs tinham desenvolvido a sua atividade entre Lagos e Calabar, no golfo da Guiné, onde alcançaram um papel significativo no comércio daquelas que eram então as matérias-primas mais cobiçadas da região: o óleo e as sementes do dendezeiro. Uma tentativa da G. L. Gaiser, uma companhia comercial de Hamburgo, no sentido de estabelecer uma colónia alemã chamada «Mahinland», que deveria fazer fronteira com o território do Reino do Benim, fracassou por fim em 1885. Um dos envolvidos no comércio dos artefactos em bronze foi também funcionário da Gaiser: trata-se de Heinrich Bey (então cônsul comercial alemão em Lagos), que veio mais tarde a ser o proprietário da Bey & Co e empregador de Friedrich Erdmann. Embora a pressão da concorrência inglesa tenha prosseguido após 1885, as casas comerciais de Hamburgo continuaram a praticar os seus negócios naquele território.

Mapa da África de 1885. Fonte: Petermanns Geographische Mitteilungen; v. 31; plate 8. Autor: Hermann Habenicht (1844-1917), © domínio público.

Comerciantes hamburgueses como negociantes de arte

Já em dezembro de 1897, a imprensa de Hamburgo desejava que houvesse mais peças deste «invulgar tesouro» nas coleções dos museus da cidade. Afinal de contas, os artefactos «permitem perspetivas completamente novas sobre a cultura antiga de países aos quais os interesses comerciais de Hamburgo se encontram de vários modos associados» (Neue Hamburger Zeitung, 12/12/1897, pág. 6). Não foi apenas Inglaterra que tomou medidas nesse sentido.

Por diversas vezes foram os comerciantes alemães que trabalhavam na África Ocidental para empresas de Hamburgo quem, depois de 1897, disponibilizou objetos do Benim aos museus alemães. Embora a maioria das peças provenientes do Benim que se encontram na Alemanha aí tenha ido parar durante a fase inicial e mais fulgurante do seu comércio — através de comerciantes ingleses e casas de leilões, como é o caso de W. D. Webster, Hale & Sons, Sotheby's e J.C. Stevens —, é também considerável a quantidade de artefactos que chegou diretamente à Alemanha. Para além da Bey & Co, a lista de fornecedores incluía ainda Eduard Schmidt, que começou por trabalhar para uma casa comercial chamada Witt & Büsch e depois desempenhou funções como cônsul em Lagos. Schmidt chegou a estar na posse de 80 objetos, que afirmava ter comprado na África Ocidental a um indivíduo do povo Edo. Em março de 1898, a imprensa de Hamburgo faz referência à coleção que Brinckmann expôs no MKG, não deixando de enfatizar as ligações coloniais entre a metrópole e a África Ocidental. «O facto de [os artefactos] terem vindo diretamente para Hamburgo e não para Londres é revelador das importantes relações comerciais que a nossa cidade tem com o país da sua origem. É de esperar que Hamburgo tenha agora também a força necessária para os conservar em sua posse.» (Altonaer Nachrichten, 14.03.1898, pág. 2) Uma esperança que não chegou a ser cumprida. Em 1899, Schmidt vendeu a sua coleção ao Museu de Etnologia de Berlim por 33 000 marcos, tendo sido recompensado com uma medalha e uma audiência com o imperador. Também em 1899, um alto funcionário da G. L. Gaiser, que entrara na posse de bronzes provenientes do Benim, ofereceu-os à mesma instituição, então sob a direção de Von Luschan. Uma outra oferta a esse museu berlinense ocorreu em 1902, tendo de novo origem num comerciante de Hamburgo, de nome Oskar Meyer, que fez acompanhar a sua missiva de uma fotografia. A imagem mostra uma compilação de artefactos de vários tipos, que, segundo Meyer, lhe haviam sido propostos pelo filho de um chefe dos Edo e que ele decidira adquirir. Observada a partir da perspetiva dos tempos atuais, a oferta de Meyer é deveras controversa por causa de um objeto em particular: entre os demais itens, Meyer apresenta um crânio humano, que descreve como «o crânio de um Bini». Em finais do século XIX e inícios do século XX era prática habitual de muitos museus etnológicos a coleção de restos mortais de seres humanos. A recolha e o comércio de tais restos mortais — sobretudo em conjugação com a investigação antropológica de inspiração racista que lhe estava associada, bem como ainda tendo em conta as circunstâncias em que ocorria essa apropriação, que muitas vezes não era consensual — consistem numa expressão indesculpável do poder colonial e configuram um crime moralmente reprovável. Tanto o Museu de Etnologia de Hamburgo como o de Berlim registam a aquisição de peças provenientes do Benim que lhes foram vendidas por Oskar Meyer: fontes posteriores atribuem a esse mesmo indivíduo a direção de uma feitoria na colónia alemã dos Camarões, bem como a realização de pelo menos seis viagens à África Ocidental entre os anos de 1899 e 1913. 

O facto de os fornecedores alemães se referirem a «compras» realizadas a indivíduos locais deve ser olhado com ceticismo. Regra geral, tais alegações carecem de fundamentação e não são propriamente elucidativas. Além disso, há que ter em conta que qualquer justificação dada na altura não servia para comprovar a legalidade da aquisição, mas antes para assegurar os possíveis compradores quanto à autenticidade da origem das peças.

O mercado dos bronzes do Benim 

Atualmente existem objetos provenientes do Reino do Benim em dois museus da cidade de Hamburgo: a maior parte encontra-se guardada no chamado Museu de Rotherbaum – Culturas e Artes do Mundo (MARKK – Museum am Rothenbaum – Kulturen und Künste der Welt), que corresponde ao antigo Museu de Etnologia de Hamburgo. Entre os mais de 200 artefactos contam-se não só peças em metal fundido, mas também trabalhos em madeira e marfim. O MKG dispõe, além disso, de três outras peças que Brinckmann reteve para a sua própria coleção e que nunca chegaram a ser vendidas.

Não há dúvida de que até à década de 1920 os museus europeus foram a força dominante no mercado dos Bronzes do Benim, no entanto a atividade de complementação das respetivas coleções estava também ligada a numerosos atores privados; entre estes contavam-se comerciantes para quem a compra e venda de objetos de interesse etnográfico se tornou o negócio principal. Em Hamburgo, os Umlauff, que detinham uma empresa familiar, eram conhecidos por venderem artigos coloniais invulgares, entre os quais se incluíam animais e artigos de taxidermia, conchas e também objetos artísticos e culturais, tais como peças de vestuário, instrumentos e objetos religiosos provenientes de todas as colónias do mundo ocidental. A partir de 1889, esses objetos foram preparados, expostos e vendidos no chamado Umlauff's Weltmuseum (Museu Mundial Umlauff), na Spielbudenplatz, uma praça adjacente à Reeperbahn, uma animada rua de Hamburgo. Para além de recorrerem aos demais fornecedores, os Museus de Etnologia de Estugarda, Frankfurt, Hamburgo e Berlim realizaram mais tarde também algumas das suas aquisições de peças provenientes do Benim a vários membros dessa família hamburguesa.

Comerciantes profissionais como os Umlauff, ou o inglês W. D. Webster (e outros), fizeram os seus negócios não só com museus, mas também com colecionadores privados. Tais comerciantes — e mais tarde também as casas de leilões e as galerias — impulsionaram a circulação dos Bronzes de Benim que se mantém até aos dias de hoje. O comércio destas peças entre entidades privadas teve vários efeitos, entre os quais o facto de os objetos, sendo vendidos como obras de arte, terem aumentado de valor e ficarem dispersos por todo o mundo.

Restituição

Nos últimos anos, foram muitos os debates que evidenciaram a importância da descolonialização das sociedades europeias. A questão sobre como lidar com objetos e coleções como os Bronzes do Benim — trazidos para a Europa na época do colonialismo, resultante de atos de violência e numa altura em que o poder dos intervenientes estava distribuído de forma assimétrica — desemboca numa discussão de particular intensidade. Apesar das repetidas exigências de restituição e do conhecimento das circunstâncias violentas que envolveram o roubo desses bens, até agora somente alguns dos Bronzes do Benim deixaram os lugares que ocupavam em coleções europeias. Das instituições de Hamburgo não partiu até hoje qualquer iniciativa de devolução.

Em abril de 2021, como resultado de uma ronda de conversações sob a égide de Monika Grütters, ministra da Cultura da RFA, na qual participou o Benin Dialogue Group (Grupo de Diálogo do Benim), ficou acordado que seriam intensificadas «as discussões sobre os processos de restituição e a futura cooperação museológica com as entidades nigerianas» (Ministério dos Negócios Estrangeiros, 2021). A resolução dá a entender que venham a ocorrer devoluções, mas mantém-se muito pouco concreta. Há mais de dez anos que decorrem conversações no seio do Benin Dialogue Group, como resposta às exigências de restituição apresentadas pela Nigéria.

Tradução: Paulo Rêgo

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Bibliografia

Auswärtiges Amt (Ministério dos Negócios Estrangeiros). Comunicado de imprensa de 30/04/2021. Erklärung zum Umgang mit den in deutschen Museen und Einrichtungen befindlichen Benin-Bronzen (Instruções sobre a forma de lidar com os Bronzes do Benim que se encontram em museus e instituições alemãs). https://www.auswaertiges-amt.de/de/newsroom/benin-bronze/2456786 (consultado a 10/05/2021).

Reuther, Silke: «Die Bronzen aus Benin» [«Os Bronzes do Benim»], in Reuther, Silke / Schulze, Sabine: Raubkunst? [Arte roubada?], MKG, Hamburgo, 2018 (págs. 18-59).

Völger, Gisela: «Kustos, Kaufmann, Benin-Forscher» [«Curador, comerciante, investigador sobre o Benim»], in Plankensteiner, Barbara: Benin, Könige und Rituale [Benim, reis e rituais], Snoeck, Gent, 2007 (págs. 213-226).

Wehler, Hans-Ulricht: Bismarck und der Imperialismus [Bismarck e o imperialismo], Suhrkamp, Frankfurt do Meno, 1985.