Debate

05

Maio

2021

18h00 - 20h00

Online

No âmbito da série de debates "Memoralizar e descolonizar a cidade (pós)colonial", 05.05. - 07.05. 2021

As marcas coloniais na cidade e no corpo

 A investigadora e autora dos livros Isabel Castro Henriques, o investigador e ativista Mamadou Ba  e o supervisor comunitário e gestor de projecto António Brito Guterres discutem as marcas coloniais visíveis na cidade e nos corpos de quem a habita. Os temas incluem os caminhos históricos dos africanos, a questão de como uma geografia racista estrutura a relação entre o que está na cidade e o que pertence à cidade, e a organização (pós)colonial da metrópole.

Moderação: Marta Lança 

 

Em colaboração com o Teatro do Bairro Alto.

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Biografias

António Brito Guterres

Dinamizador comunitário com responsabilidades de gestão em projectos de base local e comunitária em vários territórios da Área Metropolitana de Lisboa. É também investigador no Dinâmia-Iscte/IUL.

Isabel Castro HenriquesIsabel Castro Henriques

Doutorada em História de África pela Universidade de Paris I Panthéon-Sorbonne (1993) com uma tese sobre Angola oitocentista. Professora Associada com Agregação, aposentada, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde introduziu os estudos de História de África (em 1974) e ensinou História do Colonialismo e História das Relações Afro-Portuguesas. É investigadora do CEsA/ISEG-Universidade de Lisboa. Além de trabalhos científicos diversos, como projectos de investigação, programas museológicos, exposições, documentos fílmicos, colóquios, conferências, publicou artigos e livros, de que se destacam recentemente: Roteiro Histórico de uma Lisboa Africana, Lisboa, 2019; De Escravos a Indígenas. O longo processo de instrumentalização dos Africanos (séculos XV-XX), Lisboa, 2019; A Descolonização da História. Portugal, a África e a Desconstrução de Mitos Historiográficos, Lisboa, 2020; «Os Pretos do Sado»: História e Memória de Uma Comunidade Alentejana de Origem Africana (Séculos XV-XX), Lisboa, 2020; África e o Mundo. Circulação, apropriação e cruzamento de conhecimentos (séculos XV-XX), Lisboa, 2021.

MAMADOU BA

Ativista e militante anti-racista decolonial, dedicado às lutas pelos direitoshumanos das pessoas racializadas e migrantes. É licenciado em Língua e Cultura Portuguesapela Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar; titular de Curso de Tradutor pela Universidade deLisboa, Doutorando em Sociologia no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Marta Lança

Doutoranda em Estudos Artísticos sobre Programação africana em Lisboa (FCSH - UNL), editora da plataforma BUALA (www.buala.org) e coordenadora da parte portuguesa do projeto do “ReMapping Lisboa e Hamburgo”.

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Sinopses

António Brito Guterres: A forma (pós)colonial da Metrópole

Inequivocamente, Lisboa é um espaço de memórias coloniais. Apesar dessas marcas terem pedra e sítio, essa efectividade também é quotidiana, transversal e invariável na organização do espaço, forma e funções da Área Metropolitana de Lisboa. Determinados lugares foram reservados para determinados intervenientes, subjugando-os a determinadas práticas, subalternidades e resistências.

Isabel Castro Henriques: Percursos históricos dos Africanos em Lisboa (séculos XV-XX)

A longa história da presença de Africanos em Lisboa, que se iniciou de forma demograficamente significativa a partir da segunda metade do século XV, marcada pela sua situação de escravos, deixou marcas visíveis e invisíveis no património português. Legados que a história e a memória permitem hoje resgatar para compreender o seu processo de integração, as suas estratégias de vida e de preservação cultural, mas também a secular sedimentação de um preconceito português anti-negro, anti-africano, alicerçado no binómio físico (o Preto) e social (o Escravo), que definiu as relações luso-africanas e desenvolveu práticas discriminatórias que ainda hoje é urgente reconhecer, denunciar, eliminar.

Mamadou Ba: A geografia racial estrutura a relação entre estar na cidade e ser da cidade 

A relação presença-ocupação do território por pessoas racializadas está profundamente marcada por fronteiras simbólicas e físicas que determinam o grau de pertença, o reconhecimento, o usufruto e a (auto)identificação ou não com o tecido urbano, nas suas múltiplas funcionalidades. A “linha da cor” estrutura a forma como determinados corpos habitam determinados espaços. Porque, as geografias urbanas são um complexo político a partir do qual se organiza a relação com o território, definindo quem pode ou não pertencer ao tecido coletivo e que lugar nele ocupa. As dinâmicas raciais refletem-se muito na forma como os sujeitos políticos racializados percepcionam a cidade e como são percepcionados dentro da cidade. A periferização de espaços e corpos torna-se assim um dispositivo de planeamento e governo da cidade que resulta na falta de fluidez e continuidade urbanas, acabando assim por relegar às pessoas racializadas para lugares subalternos, em função e/ou consequência da sua localização geográfica no território. Desta forma, a presença de sujeitos políticos racializados no território oscila entre estar na cidade e ser da cidade. Mas, mesmo quando os sujeitos racializados se percepcionam como sendo da cidade, confrontam-se sempre com a ordem racial que não lhes reconhece esta pertença. 

Video do evento

Video sobre o tema

No âmbito do projeto "ReMapping Memories Lisboa-Hamburg: Lugares de Memória (Pós)Colonial", foram realizados quatro vídeos de apresentação, com alguns excertos de entrevistas que foram realizadas durante a pesquisa para o projeto.

Entrevistados: Ariana Furtado, José Eduardo Agualusa, Cristina Roldão, Beatriz Gomes Dias, José Baessa de Pina (Sinho)
Imagem e montagem: Rui Sérgio Afonso
Entrevistas e coordenação: Marta Lança
Música: Ninho Marimbondo Produções