Israel Kaunatjike

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Israel Kaunatjike
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“Uma placa assim não deve ter lugar numa igreja.”

ENTREVISTA: Anke Schwarzer

Há algum lugar em Hamburgo que, ao pensar no passado colonial e no presente desta cidade, tenha para si um significado especial?

Para mim, o porto reveste-se de um significado bastante importante; e o mesmo se aplica também à Afrikahaus, a sede da companhia de navegação conhecida como Woermann-Linie. Este aspeto é muito significativo. A Woermann-Linie desempenhou um papel determinante no colonialismo. Foi por intermédio dela que se enviou os soldados da Schutztruppe, as tropas coloniais, para a Namíbia. Um outro lugar que me ocorre são as instalações da antiga Caserna Lettow-Vorbeck, no bairro de Jenfeld, ali fundada pela Wehrmacht. Um dos edifícios desse antigo quartel recebeu o nome de Lothar von Trotha, o comandante responsável por crimes terríveis cometidos contra os Ovaherero e os Nama[1]. Ainda hoje se mantém algo assim em Hamburgo.

E há também a Igreja de São Miguel: no interior existe uma placa comemorativa que me incomoda. Ainda assim, acho que não tem diretamente a ver com o colonialismo.

"A Igreja em geral, não necessariamente a Igreja de São Miguel em concreto, está envolvida no processo histórico. Não podemos simplesmente ignorar esse facto."

Por que razão pensa que esta placa comemorativa em honra dos soldados coloniais de Hamburgo nada tem a ver com o colonialismo? 

Na verdade, essa placa comemorativa terá mais a ver com o enaltecimento do colonialismo, não tanto com o colonialismo em concreto, tal como aconteceu na prática, ou com a guerra. O que pretendo dizer é que a Igreja de São Miguel não esteve diretamente envolvida, mas que mais tarde, após a guerra, honrou a memória dos soldados e, através deles, da Schutztruppe, que esteve envolvida no genocídio dos Ovaherero e dos Nama. Nesse sentido, tem indiretamente a ver com o colonialismo. A Igreja em geral, não necessariamente a Igreja de São Miguel em concreto, está envolvida no processo histórico. Não podemos simplesmente ignorar esse facto. As pessoas esquecem-se sempre que a Igreja, os missionários foram os primeiros a começar a converter pessoas.

Há alguns anos estive com colegas em Hamburgo e para nós foi realmente chocante ver uma tal placa no interior de um local de culto. Nessa altura, fizemos ouvir o nosso protesto e falámos com o pastor. “Assim não pode ser”, dissemos. “Tem de complementar a placa com informação e esclarecer o seu significado!”

Nessa ocasião, o pastor prometeu-nos que iria fazer qualquer coisa a esse respeito. Tomámos a iniciativa de, por baixo da placa, colocar uma imagem que mostra crânios a serem embalados por soldados alemães para posterior transporte de Swakopmund para a Alemanha. No entanto, quando estive em Hamburgo no ano passado, essa imagem com informação complementar havia desaparecido. O pastor deve tê-la retirado. Trata-se de um homem de Deus, mas no fundo não cumpriu a sua promessa. Na verdade, acho isso triste.  

A seu ver, o que deveria ser feito com a placa comemorativa? 

Se dependesse de mim, eu retirá-la-ia. Uma placa assim não deve ter lugar numa igreja. Aquele simplesmente não é o lugar para tal. Aquelas pessoas realizaram atos criminosos. Como é que podem ser associadas à religião? 

Nas décadas de 1970 e 1980, a igreja protestante mudou politicamente e também se empenhou um pouco no combate ao sistema do apartheid. Até por isso, tenho muito mais dificuldade em compreender por que razão uma tal placa continua a estar presente numa igreja. Se se pretender uma solução de compromisso, poder-se-á então, sob essa placa comemorativa, em jeito de complemento, disponibilizar informação que esclareça os fiéis acerca dos atos perpetrados pela Schutztruppe. Isso seria um compromisso aceitável, mas tal como está não pode continuar. É isso que exijo que a igreja faça. Deverá remover a placa ou complementá-la com informação.

Tradução: Paulo Rêgo

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NOTA

[1] Lothar von Trotha (1848-1920) comandou a Kaiserliche Schutztruppe (Tropas de Proteção Imperiais) na colónia do Sudoeste Africano Alemão. A chamada Vernichtungsbefehl (“ordem de extermínio) por ele determinada serviu de base ao genocídio dos Ovaherero e dos Nama (nota da redação).