Cabo Verde na Europa. Memória e Identidade Cultural em Lisboa e Hamburgo no séc. XXI

© Francisco Vidal

Cabo Verde na Europa. Memória e Identidade Cultural em Lisboa e Hamburgo no séc. XXI

Logo após a descoberta das ilhas cabo-verdianas em finais do séc. XV, este território passou a assumir um papel geoestratégico preponderante na formação de novas identidades no espaço Atlântico, sobretudo entre os séculos XVII e XIX, período em que se deu o maior êxodo de africanos. Cabo Verde foi o primeiro ponto de passagem de pessoas escravizadas vindas do continente africano que, através da migração forçada e da ladinização, contribuíram para a construção de novas dinâmicas sociais crioulas nas Américas e na Europa. Passados cinco longos séculos desde o início deste processo, em que medida é possível descrever as experiências de migração da população cabo-verdiana nos primeiros cinquenta anos de Independência (1975) na Europa, com especial foco em Lisboa e Hamburgo?

Hélder Lopes & Madlene Gomes Reis
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“Estamos aqui porque vocês lá estiveram” [1]

                                                              Stuart Hall

Motivos estruturais da emigração cabo-verdiana

O arquipélago cabo-verdiano enquanto jovem nação traduz-se num produto político e cultural que advém do projeto colonial português que teve início no séc. XV. Desde a conquista pela Independência dos territórios ocupados por Portugal durante a época colonial, em 1975, temos assistido a interrogações de ordens várias, que vão da esfera pública à privada, evidenciando as continuidades do colonialismo e a forma como se materializam na atualidade. Neste sentido, Cabo Verde e a sua imensa diáspora não são exceção. Nós, pertencentes à segunda geração de migrantes cabo-verdianes que viajaram para a Europa no séc. XX, herdámos a condição pós-memória (Ribeiro, 2021). Isto é, um fenómeno complexo que se baseia na transmissão da memória cultural intergeracional e no posicionamento ativo e decisivo, de profundos vínculos emocionais face a este processo. Partindo da nossa experiência pessoal no espaço europeu, oferecemos algumas reflexões sobre o desenvolvimento de uma sociedade arquipelágica transnacional próxima do continente africano, de identidade crioula e de presença histórica africana e europeia.

As fomes em massa que tomavam Cabo Verde de assalto, e o término do trabalho forçado nas plantações de São Tomé e Príncipe [2] — regime do qual o governo ditatorial português se serviu para ocultar o elevado número de baixas das catastróficas crises famélicas em Cabo Verde — forçaram grande parte da população a sair da terra que a viu nascer. Detentora de cidadania portuguesa, porque “Portugal não era um país pequeno” [3], a nossa família deixou as ilhas do barlavento, S. Nicolau e S. Vicente, para rumar a Lisboa, por vezes a sós ou em grupo.

Na chegada a terras lusas, havia quem aguardasse pelos que completavam a travessia náutica que durava semanas. Para trás ficavam familiares, alguns dos quais não mais se encontrariam em vida. Pela frente, a esperança de construir uma vida condigna, que a secular ingerência colonial inviabilizara nas áridas ilhas. Muitos cruzaram o Atlântico Norte de barco, chegando a uma Lisboa mergulhada na ditadura salazarista, ostentosa do glorioso passado colonial através da simbologia das naus, caravelas, galeões e corvetas em edifícios e monumentos. Deveras distinta do clima tropical cabo-verdiano, à chegada, depararam-se com a frieza do horizonte, a estranheza e a condição social aliada ao preconceito racial. As dificuldades foram muitas e diversas e, hoje, em conversas sobre este tempo, é frequente transparecer a dor implicada em corpos que, em tais circunstâncias, carregavam o estigma associado à inferiorização social promovida pelo regime colonial. Foi preciso muito esquecer para viver e a tenacidade sempre foi maior. Apesar da rejeição e menosprezo por parte de uma sociedade portuguesa predominantemente branca, constituíram família, casaram-se e aí tiveram filhes.

As matizes das comunidades cabo-verdianas em Lisboa no séc. XX

A instalação das comunidades cabo-verdianas em território português no séc. XX pode ser entendida a partir de duas linhas fundamentais, sendo estas a da proveniência de cada ilha e o nível de escolarização. Considerando que cada ilha possui uma identidade sui generis, bem como uma variante da língua cabo-verdiana muito distinta, estes dois fatores tiveram um papel marcante no mapeamento das múltiplas comunidades diaspóricas de Cabo Verde, bem como na forma como se organizaram dentro das sociedades recetoras um pouco por todo o mundo e, claro, na Europa. Numa perspetiva micro-histórica da nossa comunidade, o percurso que aqui descrevemos dá-se a partir das décadas de 1960 e 1970, aquando da afluência migratória da mão-de-obra portuguesa não qualificada para países como a França, Alemanha e Luxemburgo.

Se, em Portugal, por um lado, se gerou uma elite cabo-verdiana que emergiu do contexto administrativo colonial português, por outro lado, surgiu uma considerável percentagem deste agrupamento insular africano com pouca ou sem instrução formal. É de frisar que este processo se deu no auge da mais longa Ditadura militar da Europa do séc. XX (1933-1974). Para este país sul europeu que, na década de 1970, tinha uma taxa de analfabetismo de 25%, a mão-de-obra cabo-verdiana consistiu numa categoria profissional, de baixa remuneração, que viria a dar resposta ao crescimento significativo da economia portuguesa nesta época. Dá-se, portanto, início a um forjar de uma identidade alicerçada num mosaico colonial, na qual a caboverdianidade convive com a portugalidade [4], isto é, sobrepõem-se identidades que são produto da história e da cultura [5], o que faz des cabo-verdianes sujeitos modernos de dupla consciência que advém do enredamento histórico que foi o Atlântico Negro na aceção de Paul Gilroy.

Lisboa: uma nova etapa, um novo desafio

A vida na cidade de Lisboa foi, numa primeira fase, local de trabalho e de habitação. Às mulheres era-lhes frequentemente reservado o trabalho doméstico interno em residências familiares brancas burguesas da capital. O mesmo sucedeu em Espanha e Itália, rotas que, no segundo caso, eram facilitadas pelas fraternidades religiosas presentes em Cabo Verde. Muitos homens faziam uma vida laboral paralela no estrangeiro, como embarcadiços nos portos holandeses de Roterdão. Os votos feitos no matrimónio ditaram, em muitos casos, vidas à distância por muito tempo e os esposos, emigrantes novamente, enviavam as remessas para Portugal, território que visitavam poucas vezes por ano. Muitos pereceram em alto mar e o trauma de alguns sobreviventes fez com que tirassem a própria vida, assunto que hoje é tabu. As adversidades provenientes da pouca ou nenhuma escolaridade e condição laboral de baixo rendimento, fizeram com que grande parte se visse obrigada a habitar as margens da capital. Na ausência de apoio do Estado, e perante as arduidades da vida, a precariedade habitacional, em muitos casos, foi inevitável, quer se traduzisse na ocupação de edifícios abandonados, como a decadente prisão do Porto Brandão — o Lazareto/Asilo 28 de maio construído em 1869, em Almada —, quer fosse em construções precárias na linha da Azambuja, situação que perdurou por décadas. Estes são apenas dois exemplos de casos que caíram em zonas de esquecimento. Felizmente, este não foi o destino da nossa família imediata que, a partir dos anos 1980, se estabeleceu, junto à linha do Sado, na zona que compreende o Barreiro e Alhos Vedros, território que, aliás, assistiu à presença negra e escravizada no séc. XVIII.

A predominância do português que, para muitos cabo-verdianos, era uma língua estrangeira, representou obstáculos à integração em terras lusas. Por sua vez, a presença da língua cabo-verdiana acompanhou todos os momentos da vivência da nossa comunidade, inclusive na recriação de uma cultura deixada para trás, mesmo após anos de residência no país de chegada. Nós, descendentes desta geração, crescemos também com o cabo-verdiano que, no entanto, muito frequentemente era evitado quando a nós se dirigiam, a fim de não “contaminar” a aprendizagem da língua portuguesa.

A relação com a terra-mãe é igualmente complexa. Embora tenhamos nascido, crescido e feito as nossas vidas adultas em território luso, num país negacionista face ao racismo institucional, é muito frequente o questionamento sobre o nosso lugar de pertença e origem. Tal como Luís Batalha afirma, ao contrário do que sucedeu na Grã Bretanha ou nos Estados Unidos da América, em Portugal não se criou uma identidade hifenizada [6], o que fez com que, em muitos casos, nos deparássemos com a rejeição e a dificuldade de integração em Portugal. Por isso, é na “África” que procuramos um lugar de pertença e uma identidade, num vasto território que nos é, em muitos casos, paradoxalmente desconhecido.

Hamburgo: símbolo de trabalho e prosperidade

As adversidades provenientes da pouca ou nenhuma escolaridade e condição laboral de baixo rendimento em Portugal descritas anteriormente, fizeram com que alguns cabo-verdianos fossem para a Holanda nos anos 1960 e, aí, se tornassem marinheiros, uma vez que trabalhar em navios holandeses e alemães era sinal de rendimentos mais elevados. Quanto à mão-de-obra, esta provinha de onde era mais barata, nomeadamente das antigas colónias, como Cabo Verde. No entanto, os embarcadiços, que foram, e são, em grande parte, responsáveis pela livre circulação de mercadorias à escala global, sempre receberam apenas as migalhas do bolo da economia mundial [7]

Nessa altura, era-lhes possível, em certa medida, escolher os navios nos quais queriam trabalhar. Foi dada preferência aos navios holandeses, escandinavos e alemães, uma vez que estes geralmente ofereciam condições de trabalho comparativamente vantajosas. Os cabo-verdianos que emigraram inicialmente para a Holanda viajaram para a República Federal da Alemanha e estabeleceram-se principalmente nas cidades portuárias de Hamburgo e Bremen. A emigração para Hamburgo foi então principalmente laboral. Assim, e tal como em Portugal, ocuparam, na sua maioria, postos de trabalho nos setores inferiores e de baixa remuneração como, por exemplo, estivadores, empregados de limpeza ou cozinheiros. Aqueles que se estabeleceram na cidade desempenharam frequentemente um papel decisivo como intermediários e, de forma gradual, trouxeram outros membros para Hamburgo. Grande parte estabeleceu-se, principalmente, em distritos perto do porto que foram negligenciados pela cidade em termos de infraestruturas, tais como Hamm-Süd, Veddel ou Wilhelmsburg. Em comparação com outros distritos da cidade, as rendas aí eram mais baixas e a proximidade ao porto significava curtas deslocações para o trabalho e, portanto, muitos não tiveram outra escolha. As atividades dos (ex-)marinheiros estavam praticamente concentradas numa área estritamente definida junto ao porto e as importantes instituições sociais para os marinheiros localizavam-se no típico ambiente portuário. Como pontos de encontro informais em torno do porto, os bares forneceram a base organizacional de comunicação e troca de informações para os cabo-verdianos em Hamburgo. Eram lugares onde as saudades de casa podiam ser partilhadas coletivamente. Os meios culturais mais importantes focavam-se na língua, na música e esta última era a expressão de tristeza e saudades de Cabo Verde [8]

Unidade: uma forma de combate à discriminação racial

A língua sempre serviu para diferenciar e estabelecer o carácter distintivo do grupo de cabo-verdianos e a sua identidade. Na situação específica da emigração, a perspetiva nacional reforça a formação e funcionalidade da identidade cabo-verdiana. No estrangeiro, as diferenças insulares não parecem desempenhar um papel tão importante como em Cabo Verde. Um fator decisivo para a coesão social deste grupo é o facto de, na emigração, os cabo-verdianos serem confrontados com problemas que os afetam de igual forma, independentemente da sua origem insular. Dá-se, portanto, uma união numa luta comum contra as restrições sociais que enfrentam no estrangeiro. No que diz respeito à situação social da emigração na Alemanha, a questão identitária implica um exercício introspetivo aparentemente conflituante. O facto de se verem, não como pessoas africanas ou portuguesas mas, sobretudo como europeias, leva à construção do Eu fortemente enraizada no microcosmos insular de Cabo Verde e, portanto, com devoção inquestionável à terra-mãe. Embora não se revejam como portuguesas, há uma pertença cultural face a Portugal e consequente afastamento do Eu africano. O distanciamento consciente da África pode ser visto como uma função compensatória face às desvantagens sentidas ao nível individual, isto é, o racismo flagrante que integra a experiência pessoal. Olhando para as desvantagens óbvias a que estão sujeitos — tais como a questão da língua, o racismo, as diferenças culturais e aspetos legais —, a situação era, e ainda é, incrivelmente difícil para muitos. Nós, de segunda e terceira geração, tentamos manter a (ainda) muito pequena comunidade cabo-verdiana em Hamburgo, organizando festividades e fundando clubes desportivos. A consciência de pertença a uma comunidade principalmente africana na diáspora está, cada vez mais, desenvolvida. Isto é, reforçam-se as experiências sócio-históricas e sócio geográficas comuns que as pessoas cabo-verdianas, de segunda e terceira geração, partilham com os seus irmãos e irmãs africanas em Hamburgo e noutras metrópoles ocidentais. 

Notas finais

Alicerçada na presença africana e na presença europeia em território arquipelágico da costa de África no Atlântico Norte, a identidade cabo-verdiana formou-se no seio de uma sociedade escravocrata, sob o Império português, durante cinco longos séculos. A emigração tem representado uma oportunidade, mas sobretudo uma condição, para uma grande parte da população cabo-verdiana, que surge de circunstâncias socioeconómicas e políticas específicas, como as secas cíclicas, o “extermínio” pelas fomes sistemáticas, a consequente deterioração da economia nacional, bem como os efeitos da guerra colonial de Portugal na África da década de 1960, levando à posterior Independência do país em 1975, bem como de outros territórios ocupados por Portugal durante a colonização. Caminhamos para a celebração dos cinquenta anos da Independência deste país num período em que a estabilidade financeira, económica global e, mais recentemente, as divisões criadas pela pandemia da SARS-CoV 2 bem como a iminência de uma guerra nuclear reavivaram marcas do racismo, de violência e genocídio, que reforçam diferenças dicotómicas entre Norte e Sul, Ocidente e Oriente.

A resistência negra ou africana em África e na diáspora está associada às lutas anticoloniais de resistência e a personalidades revolucionárias como Amílcar Cabral, Sekou Touré, Kwame Nkrumah, Assata Shakur e outros que contribuíram para que muitas pessoas africanas encontrassem uma vida condigna isenta das condições coloniais. No entanto, para muita gente da comunidade cabo-verdiana, seja em Lisboa, Hamburgo ou noutras cidades, a resistência anticolonial ou pós-colonial significa, também, opor-se às adversidades e dificuldades globais sócio-históricas e economicamente presentes no quotidiano, através da decisão e determinação de sobrevivência e convivência.

A nível político, financeiro e social, as injustiças e desigualdades baseadas na classe e “raça”, moldaram significativamente as experiências da nossa família em Lisboa e Hamburgo, bem como a de muitas outras, o que, de forma geral, se refletiu na deterioração da saúde física e psicológica. Estes incorreram em mecanismos de subsistência, por vezes contraditórios, como a amnésia coletiva, ou seja, o "esquecimento" de episódios traumáticos, a auto repressão e silenciamento da dor. As experiências quotidianas de racismo no mercado de trabalho, na educação, na procura de habitação, ou pelas mãos das autoridades estatais atestam uma continuidade colonial que, por sua vez, obriga as pessoas cabo-verdianas a reencontrarem-se com a sua africanidade. Neste processo, os conceitos e identidades culturais existentes sofreram transformações profundas sem retorno. Em suma, e no seguimento destas interrogações sobre o passado, acreditamos ser necessário continuar a promover uma dialética sobre a memória intergeracional cabo-verdiana e a sua articulação com outros fenómenos de migrações, tanto no passado como na atualidade.

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Bibliografia

BATALHA, Luís (2009) “Cape Verdeans in Portugal”, em Carling, Jørgen & Luís Batalha (eds.) Transnational Archipelago Perspectives on Cape Verdean Migration and Diaspora. Amsterdam University Press, Amsterdam.

GILROY, Paul (1993) The Black Atlantic. Modernity and Double Consciousness. Verso Books. London.

HALL, Stuart (1992) “The Question of Cultural Identity”, em Hall, David Held, Anthony McGrew (eds.), Modernity and Its Futures. Cambridge. Polity Press. pp. 274–316.

KALNINS, Artur (1991) Kapverdeaner zwischen Hamburg und Kap Verde. Emigration, Heimaten, Identität und soziale Wirklichkeit. Verlag Peter Lang GmbH. Frankfurt am Main.177–212.

RIBEIRO, António Pinto (2021) Novo Mundo. Arte Contemporânea no Tempo da Pós-Memória. Afrontamento. Porto.

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Notas

[1] Stuart Hall citado por Ben Carrington, no seu contributo à discussão sobre “Thinking It Forward” na conferência Policing the Crises na Barnard College/ Stony Brook University/Columbia University, Nova Iorque, Setembro 24–26, 2015.

[2] Há pouco tempo soubemos do caso de um parente, hoje octogenário e residente nos arredores de Lisboa, que foi submetido ao regime de trabalho forçado nas roças de São Tomé e Príncipe, prática que continuou até à segunda metade do séc. XX, apesar da abolição da escravatura em 1875 nesse país. Infelizmente, há muitas histórias pessoais semelhantes a esta não relatadas.

[3] Fazemos referência ao título do cartaz propagandista realizado pelo oficial do exército Henrique Galvão em 1934, aquando da I Exposição Colonial Portuguesa no Porto. Este evento teve por objetivo a exaltação da ideologia colonial defendida pelo ditador nacionalista português António de Oliveira Salazar (1889-1970).

[4] Batalha, em Batalha e Carling, Transnational Archipelago Perspectives on Cape Verdean Migration and Diaspora, 61.

[5] Hall, em Hall, David Held, Anthony McGrew, The Question of Cultural Identity, em Modernity and Its Futures. 274–316.

[6] Batalha, em Batalha e Carling, Transnational Archipelago Perspectives on Cape Verdean Migration and Diaspora, 44. 

[7] Kalnins,  Kapverdeaner zwischen Hamburg und Kap Verde. Emigration, Heimaten, Identität und soziale Wirklichkeit, 95.

[8] Kalnins, Kapverdeaner zwischen Hamburg und Kap Verde. Emigration, Heimaten, Identität und soziale Wirklichkeit, 76.